04 novembro 2011

Desejares

Desejo que você me tome nos braços com ferocidade e, sem pedir, aprisione minha alma. Que cochiche aos meus ouvidos, em baixo tom, qualquer segredo teu. Desejo que me quebre em pedaços que satisfaçam seus desejos, e que seus desejos sejam salpicados de pedaços meus. Desejo continuar brigando com você por quaisquer motivos bobos, só pra ter certeza que você ainda precisa de mim. Desejo que você me acorde muitas vezes com beijos no pescoço, que me afague com serenidade quando insisto em me afogar em lágrimas. Que eu prepare seu café da manhã por muitas manhãs de sábado e, nos domingos chuvosos eu te faça adormecer acariciando seu rosto e cantando uma melodia qualquer, bem baixinho, só pra chamar o sono. Desejo que quando você acordar me olhe dormir e, sorrindo, não se mova para não me assustar. Ou que você me acorde aos pulos e gritos, nos derrubando da cama. Desejo que você grite, brigue, diga até me odiar para que, sorrateira, eu me encaixe em teus braços achando uma graça tanta braveza. Desejo sentir teu cheiro em tudo que é meu, em tudo que me faz tua. Desejo que você não seja tudo o que sempre sonhei e que eu não sinta paz ao seu lado, que a nossa estrada seja uma enorme aventura e, cada dia uma grande surpresa. Desejo que você insista em cantar aquela música que eu detesto só pra me fazer te perseguir pela casa, te mordendo pra você parar. Que a nossa musica seja como um hino e que, quando brigarmos, eu te pegue cantarolando ela no chuveiro, como um pedido de reconciliação. Desejo muito, desejo tudo que é nosso por destino. Desejo ter você, me desejo inteira sua, desejo ser seu mundo e que você transforme o meu. Desejo ouvir da tua boca palavras minhas, e que a minha boca seja morada tua. Desejo que nossa vida seja doce enquanto tiver que ser, e plena por quanto durar. Desejo primeiro, e principalmente, que você me ame e, logo depois me deseje. E aí não terei mais nada o que desejar.

20 outubro 2011

Ela não tinha certeza sobre o que queria. Se queria um amor, ou se disto ela já estava farta. Se queria viver tudo o que podia, ou se queria morrer pro mundo e viver um sonho. Estes são exemplos de uma cesta enorme de 'se' que ela tinha. Mas entre inúmeras e contantes dúvidas, sobre algumas coisas ela tinha certeza.
  Ela queria ser uma princesa, desde criança estava preparada para esse momento,e lutaria até o fim por essa vontade. Ela queria amar desmedidamente, um amor que nunca chegasse ao 'estágio de banheira'. Ela queria ser jovem pra sempre, mas ter a cabeça e a experiência de quem já viveu muitos bons anos.
  Ela queria ser mar, brisa doce e suave também, onde as pessoas pudessem encontrar esperança, depositar angústia, e irem embora melhor do que chegaram. Ela queria realizar todos os desejos alheios, como se pudesse assim cumprir seu 'dever', mostrar a que veio. Entre milhões de dúvidas saltitantes em sua alma, alguns desamores no peito, e um   punhado de promessas quebradas no passado, uma coisa ela sabia, e os outros também:
Ela era um inteiro de desejos que borbulhavam por acontecer.

14 setembro 2011

Amor de Eu e Você

Eis que da pele escorre desejo, na cabeça há um emaranhado de pensamentos sobre uma mesma figura e, daquilo que não era nada, que era um vazio de não ser absolutamente nada que se defina concreto, nasceu um 'nós'. Ou como você disse, um "Eu e Você."
Era cedo quando você disse que não sabia o que éramos. Na verdade não era tão cedo assim, era já madrugada quando li isso, por que, aliás, você não disse, escreveu. E o fez numa carta grande, de páginas carinhosamente tímidas que queriam mais do que te apresentar, mais do que me felicitar pelo aniversário, queriam mais, assim como você. Eram parágrafos que anunciavam a sua chegada, o seu dominar no meu império, o início desse seu reinado.
Lembro que foi na segunda folha que você nos resumiu ao 'indefinido'. Disse, em letras cautelosas, mas sugestivas, que não sabia o que era tudo aquilo, que não era amizade, mas também não era amor de eu e você. E deste momento em diante, ou melhor, desta linha em diante estava claro que esse dia em que teriamos de ser alguma coisa iria chegar e, mais precisamente, estava claro que o meu eu iria tentar de todas as formas ser amor com você
Dito e feito.
Os dias passaram e a falta de nome também passou. Éramos, enfim. E éramos amor mesmo, e este não fora decretado antes apenas por medo, insegurança, ou covardia, mas existia desde o início. Cada dia que passava, mais precisava de você, do seu carinho, do seu cheiro peculiar, e do calor que eu sentia ao seu lado, mesmo quando não estávamos sob o sol da tarde. Alguma coisa sempre esquentava em mim na sua presença, talvez fosse sua pele morena. Quem sabe.
O fato é que tão logo viramos 'nós', as coisas evoluíram na velocidade da luz. Passamos do sofá esquecido, para o corredor isolado e de luz piscante, depois pra sua casa, quarto, banheiro e, enfim, para minha cama. Mesmo sendo tão rápidos os momentos que nos construíram, eu já esperava por eles, em cada um de seus detalhes, cada um de seus defeitos, nessas mínimas frações erradas que fizeram de tudo que vivíamos um inteiro, perfeito.
E foi assim que, desejando cada vez mais, me mantive súdita fiel do teu reinado, sempre esperando anoitecer para despir-te do medo, da vergonha, da coroa, do poder, das tuas vestes. Sempre tão precisamente ao encontro do meu gosto, me satisfazendo inteira, como amiga, mulher, e amante. E melhor ainda do que madrugar noite a dentro em teus carinhos, era amanhecer entrelaçada em tuas pernas, encaixada nos teus braços, à procura de mais um beijo, e mais um, e mais outro, e mais, mais.
Agora aqui bate um coração medíocre, implorando pela nobreza do teu amor para bater. E seguimos assim, sendo 'nós' entre beijos que calam discussões, e entre discussões que pedem por beijos, sustentamos o amor que já nasceu do nosso jeito, do nosso encaixe, no formato preciso de existir em nós. E vendo fotografias, daqui a vários anos, relembraremos de quando não sabíamos, ou fingiamos não saber, o que éramos, mas mantínhamos em off uma vontade incontrolável de sermos um, e da pressa que tínhamos para parar o tempo e o espaço nessa eternidade do nosso amor de eu e você.


Vem, estou te esperando!

12 setembro 2011

Entre água e fogo.

Eram dois que se conheceram de repente, num cruzar rápido, e desgostoso, pelas prateleiras do mercado. Ela sabia quem ele era, já havia notado a presença silenciosa dele em sua sala, na faculdade. Ele não a conhecia, e achou até que preferia dessa forma. Mas os dias foram passando e, daquele primeiro encontro vazio no mercado, surgiu um coleguismo com grande potencial, mas que não conseguiu anunciar a profundidade do que estava por vir.
Passaram juntos por dias de luta, tristeza, preguiça, decepção, alegria, amor, saudade. Dias em que, mesmo não dando o braço a torcer, bastaram-se, ele pela presença dela, ela pelo cheiro dele. E construíram assim, propositalmente 'deixando rolar' uma amizade com ares de antiga,sólida, que ao mesmo tempo caracterizava amor novinho, paixão incerta e inocente. Mas era cedo demais pra isso, e as condições, os "quês e porquês"... Não, não, isso já era demais.
Até que então a falta foi suprida, o abraço encaixou perfeito, e a mão, quando fazia carinho, afagava a alma, não apenas a pele. Tudo o que viviam juntos era mais intenso, mais verdadeiro, extremamente mais prazeroso, de modo que estar com ele deixava ela calma, sentindo algo como paz, e ela passou a ter necessidade de vê-lo. Para ele estar com ela era como desfrutar de um passeio no bosque aproveitando o dia lindo, como sorrir por motivos inocentes,era quase como ser feliz.
Mas as coisas não são assim, sentimentos não podem simplesmente surgir e crescer infinitamente, sem freio. Há momentos na vida que o tempo cobra o que vai ser dali em diante, e mesmo que não seja tomada nenhuma decisão, um rumo deve ser escolhido, pelo menos. E agora estavam os dois, atônitos, perseguidos noite e dia pelo que já são, o que querem, e o que poderiam ser. Se nada fizerem, tudo continua assim: Dois que são um, um companheirismo absoluto, um completar secreto, e continuarão a chamar uma paixonite oculta, um amor de feição, apenas de amizade.
Se resolverem mudar, recomeçam assim: Amizade que cresceu e floriu, necessidade imensa um do outro, sentimento inexplicavel e até impossivel, mas exatamente por isso gostoso de ser vivido, e vão chamar a grande amizade, enfim de paixão, de amor primaveril.
É que o mesmo tempo que aproxima, afasta, e entre esses extremos cabe a cada um viver, aproveitar e, acima de tudo, experimentar. Que ele se resolva logo, escolha bem, sinta e viva tudo o que lhe for permito na companhia dela. Que ela seja mais intensa, mantenha a doçura e o abraço que é só dele, e esteja ali sempre por ele, pra ele. E que estes dois nunca se esqueçam que, independente de esta relação continuar a ser como água, pura, simples e essencial, ou que ela passe a ser como o fogo, voraz, intenso e delicioso, nunca deixarão de ser os dois que eram um só, unidos por um sentimento que desconhece, e por isso dispensa, explicações.

09 setembro 2011

Amor de Banheira


É que o amor, por mais furioso que comece, sempre chega em uma fase ‘ponto morto’. Pode ser a fase de chama branda, aquela em que já não há brasa viva faiscando, mas também, ao contrário da tristeza do ‘morrer do fogo’, pode ser apenas o conforto do ‘morno’,  aquela mansidão de uma banheira em que a gente quer se deixar ficar. Aquele amálgama de tanta coisa que já foi vivida, agora deixada em algum canto onde não vá atrapalhar a passagem. Porque em matéria de amor, aparar todas as arestas, por mais artista da convivência que se seja, é utopismo simples, diria até inocente. No máximo, consegue-se ‘podar’ umas e outras quinas, às vezes nossas, às vezes do outro. E os cantos vão ficando lotados do que abdicamos, relevamos, fazemos vistas grossas. Vez ou outra, tropicamos numa delas e acaba machucando, resistimos, mesmo que incomodados, e seguimos. Seguimos pro nosso quentinho, morninho, pro nosso amor de banheira, cuja profundidade não oferece mais nenhum perigo, e cujo conforto já não significa completude, muito menos felicidade.

18 agosto 2011

E nessa insistência em querer fugir de tudo que é você, me perco no tempo, no espaço, em outros braços. E pior que isso, não vejo que o amor que desiste em mim, não pára de crescer em você.
 Ainda que não pudesse ver, não pudesse ouvir, não pudesse ter, não pudesse sentir, aquele desejo da presença dela nunca acabava, e o beijo...Ah! O beijo... a sensação daquele beijo nunca mais lhe deixaria os lábios.
‎Era um beijo indescritível, incontrolável, seguro, ardente, carinhoso. Lábios que procuravam os outros a todo momento, a qualquer descuido, nos cantinhos, no escuro. Aquele beijo era muito, pedia muito, desejava muito, anunciava muito. E era só o primeiro.
Um beijo que me parou no teu segundo, no minuto daquela hora, me obrigou a penetrar teus sonhos sem nem sequer convite. Um toque de lábios que descobriu o lado que me faz bem, o do avesso, de não me preocupar com o certo ou errado, pois desse trem eu desço.
Sem explicações, motivos ou razões, eu vou aonde o sol brilhar, e o céu sorrir. Eu vou pra qualquer lugar, faço qualquer coisa, aceito todas as condições e assumo as devidas consequências esperando que, mesmo na minha forma errada e invertida de ser, o gosto único daquele beijo nunca se apague em minha boca.

31 julho 2011

Feliz (?!) Aniversário!

Sei que hoje deveria dizer o que sinto a respeito de estar completando 20 primaveras. Tudo bem, mas que seja dita a verdade: tenho quase certeza de estar completando 20 invernos. É sempre aquela sensação gélida, consistente, incômoda, cruelmente sarcástica de sentir frio sozinha, sem nenhuma proteção.
Todavia, excetuando os olhos tristemente marejados, isso não é uma reclamação. Talvez seja como um agradecimento, é, um agradecimento à vida, pelos ensinamentos, pela experiência adquirida. E esta foi muita, muita mesmo.
Ao longo desse tempo aprendi muitas coisas... 
Aprendi que as pessoas podem ser doces ou azedas. As azedas são ruins, claro, mas pior são as doces que de tanto adoçar, um dia estragam. Aprendi que no caminho da vida existem muitas placas, atalhos, encruzilhadas, mas o lugar para onde vamos seguir só depende de nós, pode ser totalmente no rumo contrário, por estradas de barro, por entrada sem placa, por onde a gente quiser. Aprendi que nem tudo que brilha é estrela, e nem toda escuridão é o fim. Aprendi que querer é meio caminho andado para poder e que, na maioria das vezes, quando podemos não queremos mais. Aprendi que as pessoas [é, aprendi muito sobre as pessoas] podem ser uma surpresa eterna, seja ela boa ou má, e temos que lidar com isso, ou partir pra outro planeta não povoado por meros seres humanos. Aprendi que saudade não tem hora, data, ocasião ou endereço para apertar o coração com tanta ferocidade como quisesse arrancá-lo do peito, e só pára de doer quando se transforma em lágrimas à escorrer pelo rosto.
Ah, eu aprendi muitas coisas. Esses são só alguns exemplos. Mas aprendi, principalmente, que amor não se explica, acontece. Não se define, chega se impondo. Não tem volta, apenas desilusão. Não tem mistério, é apenas se entregar. Aprendi, finalmente, que nunca soube amar, e é por isso que amo tanto, errado, mas infinitamente muito.

19 julho 2011

Eu quero um amor que seja intenso,
mas também seja suave.


Eu quero um amor que seja tranquilo,
mas também seja devastador.


Eu quero um amor que seja real,
mas também seja conto de fadas.


Eu quero um amor que mesmo não existindo para sempre,
sempre exista para mim.

Um Doce Colorê

Chegou em casa e correu para o quarto com a mão contra a boca, como se quisesse guardar o máximo possível a impressão daquele primeiro beijo, tão ensaiado e que apenas hoje tinha, de fato, acontecido. Deitou na cama e olhou para o teto, era como se visse um arco-íris. Teve a certeza de que nunca iria esquecer aquela tarde, aquela sensação de perigo, aquele desejo escondido, tudo. Olhava os móveis ao redor no quarto, e sorria, não via nada além daqueles lindos cabelos claros que finalmente fizeram mais do que apenas provocar. Queria mais daquele beijo, muito mais, e iria esperar por isso. De repente, um sorrisinho lhe saltou do cantinho da boca ao relembrar do gosto daqueles lábios. Eram tão deliciosamente como ela esperava e melhor, eram doces. Sim, doces como balinha, ou tinham um quê de chocolate da infância, não tinha certeza, mas eram doces. Não sabia como aquilo iria acabar, mas sabia que hoje o dia acabava assim... Com a imagem dos lindos cabelos claros na cabeça, a sensação do toque macio da pele branquinha nas mãos, o perfume marcado nas roupas, e a doçura daquele beijo eternizada nos lábios.

12 julho 2011

Covarde, sentou na poltrona do quarto olhando vagamente aquele horizonte nublado, tipicamente oportuno nos dias em que nublamos por dentro. Pensou, desejou, ensaiou levartar-se e ir, mas o coração travado gelava, pedido para ela ficar. Não era masoquista e embora soubesse, certo como o sol de todo dia, que ir significava voltar aos frangalhos e sangrando, ela precisava estar lá, e no caso de voltar nesse estado de dor e fracasso, ao menos teria a certeza de estar viva por senti-lo.
Apagou o cigarro da coragem e foi. Foi sem saber se podia, foi a ignorar o peito implorante aos gritos, foi velando um coração que jamais teria novamente inteiro. O corpo tremia e ela tropeçava no ar. Sentia um frio horroroso em cada brisa furtiva que lhe balançava os cabelos, mas sabia que, na verdade, queimava em febre, febre de ansiedade, de angústia, da contrariedade de estar indo.
Apenas uma coisa ela desfrutava: o silêncio. Este sim não era um suplício, ela adorava silenciar, saboreava o mistério do silêncio que não cala, faz falar.
Voltou sem lágrimas, talvez já as tivessem chovido outrora, talvez os olhos lhe negassem qualquer piedade, ela sabia que ia ser assim quando teimou em ir. Ela caminhava passos firmes, na busca do caminho de volta, do quarto que deixara covardemente, mas sem nenhum apocalipse interno visível. Olhava a paisagem agora em cores gritantes, ouvia conversas falhadas entre transeuntes, admirava o canto dos pássaros. Abriu a porta, dirigiu-se ao quarto. Entrou, percebeu os passo mais apressados em direção ao canto do quarto, praticamente jogou-se na poltrona, de tal forma que nem uma ligeira passadela de olhos no espelho pode dar, posto que não viu o rosto desgranhado de frustração, tampouco os olhos gélidos, sem vida com que voltava agora desolada.
Sentada na poltrona também não chorou. Estava diferente, só não sabia como ou quanto. Algo mudava dentro dela, achava até que o coração já não batia. Ela era uma nova mulher, acrescida de dor, diminuída a idade, era insuportável imaginar viver sozinha com esta estranha com quem ela estava dividindo o corpo. Mas  ela era só, e esta, descobrira hoje, era sua maior qualidade.

02 julho 2011

Assim caminha a humanidade

Cada dia que passa ouço menos o que as pessoas falam e observo mais o que fazem.
Juntam dinheiro perdendo a saúde, e gastam tudo tentando recuperá-la. Vivem como se nunca fossem morrem, e morrem sem ter vivido nada realmente válido. Adoram falar, discutir, brigar, mas ouvir nunca aprendem. Usam e abusam tanto de aparências e pré-conceitos,que não é surpresa não reconhecerem a figura que através do  espelho os observa. Fazem tudo e qualquer coisa para subir e,tão logo avançam, já sentem o desejo infeliz de pisar em quem ainda está subindo.
As pessoas não têm mais tempo para nada que não seja buscar uma tal superioridade. Levianos e pobres de espíritos, pois se esquecem que, terminando o jogo, o peão e o rei voltam à mesma caixa. 
Agora que entendi que amor não é ócio, nem vício,
e sim sacerdócio sacrifício, eis o diagnóstico:
Me falta a vocação

Um incansável querer mais.

Ele sempre quer algo mais. É tão intensa a pressão, tão insistentemente  forte a vontade de me ter nos braços, que ele me afasta de si nos pequenos gestos despercebidos. Percebidos 24 horas por mim. É um constante abrigo que no fundo quer aprisionar, para que eu não fuja, e ninguém mais possa entrar por mim. 
Acontece que ele sempre quer mais do que posso dar. É um querer que não tem fim, um infinito do qual eu não quero pertencer. É brigar com a razão, e se lambuzar nas perdições gostosas da carne, na ânsia de fazer, do que é apenas fogo, um grande amor. Mas não comigo. Não tenho nada para doar nesta investida fatal, posto que não me resta mais que um vazio no coração contrariado, depois de muito ter dado à antigas paixões fogosas que nunca viraram amor. Não posso alimentar um fogo que além de não queimar, mal me esquenta.
Ele vai pedir mais por muito tempo, e já me permito ser indiferente, uma vez que o tempo vai mostrando aos poucos que não é culpa minha nem de ninguém, ou melhor, que não há culpa, apenas desencontro. Enquanto isso, eu assisto a chama acesa queimar serena, desgastando-se aos poucos como vela de promessa. Mas que fique claro: Se pudesse, daria tudo e mais quanto mais ele pedisse. Só que deixo essa oportunidade ao futuro, quem sabe ele me surpreenda. Pois, no presente, não preciso tentar ser dois com ele, sabendo que nunca fui uma completa, de tantos frações espalhadas por ai.
O fato é que a insistência dele em nos fazer plural, balança meu singular, mas me mantém invariável.

14 junho 2011

Sempre fui quem preenchia a falta.
Onde faltava sorriso, eu levava a piada.
Onde faltava calor, eu levava o abraço.
Onde faltava alegria, eu levava a novidade.
Onde faltava respeito, eu levava a compreensão.
Mas quando faltei, não havia nada nem ninguém por mim.
Percebi, com o tempo, o que realmente sempre faltou.
Hoje, onde falta amor, eu não me demoro a levar.

07 junho 2011

Morrer de Amor

O tempo que ela havia pedido acabara, e ele resolveu então que também acabaria seu sofrimento. Esperou por vários dias por qualquer sinal dela, de que sentia sua falta, queria que ele voltasse. E nada. Ele pôde concluir, ao longo dos dias, que o amor que um dia ela sentiu por ele se perdeu ao longo desse tempo. Tinha sofrido muito por ela nesses longos dias que estavam separados,sofreu por não tê-la e por não saber se ela deixara de ser apenas sua. Levantou daquela mesa ao fundo do bar, onde havia feito morada no último mês, e seguiu a passos duros pela ruas que antigamente levavam-o ao encontro de sua amada. Hoje, estas mesmas ruas lhe encorajavam a vingar-se, não podia ser desprezado desse jeito depois de entregar-lhe corpo e alma como jamais havia feito à mulher alguma.
Parou no portão da casa, olhou o relógio. Já era madrugada, mas a luz do quarto acesa anunciava o que ele queria saber. Ela estava em casa e ele iria entrar sem avisar, afinal era uma vingança. Rodeou a casa, e entrou pela porta dos fundos, ele se lembrava bem de que há algum tempo a maçaneta havia estragado. Entrou. Tudo estava como antes, tudo no lugar, apenas ele não fazia mais parte do cenário, era um ator demitido, uma lembrança da temporada anterior. Triste, subiu as escadas como quem teme o que possa encontrar a cada novo passo. Silencioso andou o corredor superior sem abrir nenhuma porta em vão, não havia nenhuma necessidade de entrar em qualquer outro cômodo, ele queria apenas o quarto que costumava chamar de seu, e agora desejava não saber de quem era.
Ao final do corredor, lá estava a porta que buscava, entreaberta como ela gostava, para que a luza do corredor afastasse o medo do escuro. Mas ela iria provar da escuridão hoje, a escuridão em que ele havia mergulhado quando ela o deixou. Abriu a porta com cuidado, tentando evitar o ruído que sempre a acordava quando ele levantava para ir beber água. Conseguiu, entrou no quarto sem qualquer barulho. Olhou para cama mal conseguindo respirar, e lá estava ela, dormindo quase que sorrindo de serenidade. Ele sentiu raiva, incontrolável peso no peito que correu às mãos, ela dormia tranqüila enquanto ele há dias perdia o sono a pensar nela, sofrer por sua ausência.
Pegou o travesseiro em que,antigamente, sorria observando-a adormecer. Cheirou, sentiu o perfume dela, uma das coisas que ele jamais esqueceria. Fechou os olhos e derramou algumas poucas lágrimas, de uma consciência que sabia ter falhado, ele não queria fazer isso, mas precisava vingar-se. Apertou com força e tristeza, como fosse uma fera ferida, o travesseiro no rosto dela. Aquele rosto de anjo que ele adorava admirar. Apertou, segurou, fez mais força. Era agora, agora, agora, só mais um pouco, força, raiva, mágoa, mais um pouco e pronto. Entre lágrimas, esboçou um sorriso aliviado e disse:
- Eu sempre amei você, e agora você vai me amar pra sempre.
Deixou-se ao lado da cama por mais um breve momento, olhando a mulher morta, a mulher que ele acabara de assassinar para vingar o amor que ela havia assassinado em seu peito quando o deixou. Então acabou, ele tinha se vingado cruelmente da crueldade que ela lhe havia feito. Não era assim que se retribuia amor tão grande como o dele. Foi andando de volta para aquela mesa de bar com a sensação de dever cumprido.Tinha se vingado e, além disso, entendia agora o que ela lhe dissera outro dia. Seu amor tinha, de verdade, sufocado-a. E ele tinha mostrado a todo mundo que alguém podia sim morrer de amor por ele.
Às vezes as pessoas me perguntam porque ainda guardo fotos tuas, e as fotos nossas.
Nunca soube responder com segurança,com a certeza de um motivo válido, concreto.
No entanto,ao sonhar com teus carinhos, teus abraços, teu sorriso, hoje acordei com a resposta a saltar-me da língua, e o coração fazendo o mesmo na boca.
Ainda guardo esses fragmentos de ti porque, pelo menos nas fotos, ainda posso sorrir ao te ver.

17 maio 2011

Abaixo os olhos quando te encontro,
me queimam bochechas rubras de imediato,
finjo que passo serena  por você,
enquanto luto para andar ofegante e de pernas bambas.
Não é amor, talvez seja vergonha.
Da sua imperfeição que me excita,
ou da minha perfeição que você não nota.

09 abril 2011

Perigo de nós dois

Perigoso não é sentir raiva. Quando surge, me faz ver tuas outras faces.
Perigoso não é sentir nojo. Quando ameaça, me faz provar teus outros sabores.
Perigoso não é sentir rancor.Quando necessário, me faz testar teus outros charmes.
Perigoso não é sentir arrependimento. Quando aparece, me faz lembrar teus vários encantos.
Perigoso é não sentir nada. O nada absoluto que me faz te procurar em outros amores.
E desse perigo, morreremos de súbito.

17 fevereiro 2011

No amor não há solidão, tristeza ou mesmo tempestade que se faça eterna. Na verdadeira eternidade, posto que no amor ela exista, há muito de tudo, e um pouquinho de nada, mas há principalmente o que de mais eterno tem o amor: o lugar reservado para uma única pessoa especial em nosso peito, corpo, um lugar a ser preenchido em nossa alma. Espaçinho este tão fundamental que passamos a vida inteira procurando, em outros corações, achar o encaixe, a procura de caber em algum abraço, sonhando estar na medida perfeita. Eis aqui a completude, o buraco fechado como se nunca houvesse sido aberto, o calor do abraço encaixado, enfim, nos braços corretos. Sei que você sabe para onde correr em qualquer tempestade, mas espero que saiba também que, de hoje em diante, vai haver eternamente um espaço teu em meu abraço.
Bang Bang, inconscientemente apontamos nossas armas frente a frente...
Voce atirou em mim, um tiro certeiro não consegui fugir, nem ao menos correr eu podia.
Mal respirava, e voce sem noção do que fazia, continuou atirando, não me machucava mais, nao assustava mais, apenas me prendia mais a você...talvez fosse isso q quisesse, mesmo inconscientemente, me prender a você , ser sua de alguma forma.
O mais comico de tudo isso?? Era eu pedindo para você parar, mesmo querendo que continuasse..
Sem saída minha única alternativa foi retribuir a gentileza do disparo. E bang bang te surpreendi. Assustada você ainda consegue andar, da um sorriso, como se dissesse que n foi tao certeiro, mas assim como o seu disparo te prendi a mim.
Entao você volta, chega mais perto para ver o ‘estrago’ , deita ao lado do corpo q você mesmo derrubou, encosta seus lábios no meu ouvido , e com uma voz ofegante diz:
‘ você quer me matar?’
Sem precisar responder você completa.. “EntaoVem”
E assim. Com tiros precisos e certeiros montamos o nosso faroeste..
Bang bang, vc me pegou!!!


[(sic) - texto encantadoramente escrito por J.T/reprodução completa e fiel ao original.]

15 fevereiro 2011

Seja Bem-Vindo

Já não lembro o motivo exato da criação deste blog.
Talvez por, na época, estar na febre de 'blog, blog, blog'.
Talvez por sentir, das mãos à alma, a liberdade de dizer.
E,mesmo assim, dizendo tudo, de mim nunca entendi nada.
Pode ser que eu sentisse vontade apenas de expressar minhas alegrias, minhas esperanças, desejos. Quem sabe eu quisesse me livrar dos medos, anseios, das mágoas, de compartilhar a dor que nunca passa. Mas acredito mesmo é na minha vontade de te fazer íntimo, conhecedor onisciente do que me ia na alma.
E assim o fiz. Bem feito, não o digo, mas feito de coração nos dedos, estes que digitavam entrelinhas carinhosas, decepcionadas, sarcásticas, misteriosas.
Contudo, escrever é sempre um bom refúgio para quem, na vida, não tem qualquer esperança. Há certo preenchimento de espaços, buracos, vastidão de nada onde, geralmente, nascem os escritores. Aos que não gostam ou não têm a mínima vontade de escrever e, por isso, não entendem essa peculiar explicação, quem sabe um dia possam vivenciar que um beijo escrito vale muito mais que um beijo dado.
Tomadas estas linhas como uma 'introdução tardia' aos meus tesouros secretos, de valores e segredos duvidosos, finalizo com as minhas boas-vindas aos queridos visitantes, afinal, é de pouca educação entrar na casa dos outros sem ser bem-vindo.

05 fevereiro 2011

No teu corpo me perco, em teus carinhos apaixonada me reencontro. Em tua pele sou úmida, seca na tua vontade, na minha sede de ser tua, inteira. Nos teus lábios doce sabor de paixão, adocicado bom que amolece coração amargo,como o que mora nesse peito.
Peito esse que retumba na batida dos teus passos, no compasso dos teus toques. Desejo de fogo, brasas de um querer vivo e instantâneo. Faíscas de um futuro incerto, outrora desnecessário, hoje fundamental. Estranho complexo de me ver eternamente assim, perdida nos teus descaminhos. Sou isto, eu e você em mim, e me satisfaço neste nosso contrato mudo, de sempre mergulhar nas tuas urgências,e sempre me afogar nas tuas contradições.
Depois da névoa que lhe afagava o rosto e desgrenhava os cabelos, ela, enfim, podia ver. E via o sol, pássaros, talvez até um arco-íris, via claramente. Isso era vida. Já não havia o constante correr pelo corredor opaco, sem portas ou janelas, onde ela era apenas borrão.O chão não sumia mais, nem as mãos estendidas desapareciam, de forma que ela não mais caia infinitamente no abismo do escuro desconhecido.
Ela via, e o que via era só luz, parecia não haver nada mais, contudo isso bastava. Este não era, para ela, como um fim do túnel, era o portão de entrada para um novo caminho. Alternando preocupação e euforia ela entendeu que, agarrando essa oportunidade, ela teria vida, e esta certeza de um propósito para ir além lhe felicitava como um carinhoso beijo na alma tão machucada que trazia.
Ela lutou pelo que queria, atravessou sem receio a fronteira entre querer e poder e foi além do abstrato. Ela fez vida do que, até então, era sonho.

31 janeiro 2011

Eu me perfumo para intensificar o que sou. por isso não posso usar perfumes que me contrariem. perfurmar-se é uma sabedoria instintiva. e como toda arte, exige algum conhecimento de si própria. uso um perfume cujo nome não digo: é meu, sou eu. duas amigas já me perguntaram o nome, eu disse, elas compraram. e deram-me de volta: simplesmente não eram elas. não digo o nome também por segredo: é bom perfumar-se em segredo.
[Clarice Lispector].

27 janeiro 2011

A Mulher de Leão

A mulher de Leão é muita areia para o caminhãozinho de qualquer um. Ela é uma jóia rara que não se encontra em qualquer lugar! Existe algo na mulher de Leão que pode assustar os homens: sua popularidade com o sexo masculino! Poucas são as leoninas que não vivem cercadas por muitos amigos e não possuam uma coleção de ex-namorados. Se você é do tipo de homem que detesta saber que é o vigésimo a ocupar o coração de uma mulher, desista! Se você sofre de complexo de inferioridade, a melhor coisa que deve fazer é esquecer esta "Rainha"! Apesar de fazer cara de pouco caso quando ouve um elogio, ela simplesmente não pode viver sem eles! E, é muito importante de nunca se esquecer de alimentar seu ego. Mas, seja criativo! Ela não se emociona com frases feitas ou românticas. Não adianta dizer que a ama, que está perdidamente apaixonado! Isto funciona com outras mulheres. Com ela o melhor é dizer: "Você é espetacular!"
A leonina adora gastar com roupas, sapatos e geralmente seu gosto é excelente, apesar de um pouco caro.As mulheres de Leão não tem nada de tímida ou submissa. Tente provoca-la um pouco para ver como ela volta a ser a Leoa de sempre! Em se tratando de sexo, é muito raro encontrar uma leonina que tenha algum tipo de dificuldade para conseguir prazer. Ela não costuma ser adepta do sexo passivo, deixando toda a tarefa de descobrir novos pontos de prazer para o companheiro. A leonina adora dominar e buscar o prazer, para ficar deitada em uma cama! O sexo para ela é um prazer e tudo que tem a ver com prazer consegue incendia-la. Seu apetite sexual e sua desenvoltura na cama podem assustar alguns homens, mas ela não vai arredar um centímetro na busca daquele orgasmo!
Apesar de todo seu orgulho e vaidade, a leonina dificilmente é arrogante ou insuportável, como muitos poderiam supor. A leonina apenas separa as pessoas de seu convívio de acordo com sua vontade sem ofende-las ou maltrata-las. Na verdade ela costuma ser uma pessoa tão amável e carinhosa com as pessoas que fica difícil ver qualquer defeito nela. Os amigos nunca conseguem ver uma pessoa orgulhosa quando estão ao seu lado. O que a gente vê é uma mulher com tanta autoconfiança que ficamos maravilhados. Seu magnetismo e charme conseguem derreter qualquer coração.Ficar enciumado por que ela gosta de ser o centro das atenções masculinas é perda de tempo! Para ela é natural que os homens a desejem.É mais fácil encontrar chifre na cabeça de cavalo do que encontrar uma leonina que se deixe ver desarrumada.
Se está apaixonado por uma mulher de Leão, parabéns! Você tem uma mulher que sabe ser elegante, tem bons gostos, adora aventuras e sabe fazer amor como poucas.Todos os dias em que acordar e ver esta mulher ao seu lado, pode ter certeza de que é um felizardo que conseguiu conquistar uma das melhores mulheres do mundo.

Astrólogo e Cientista Anderson Swarches.


[Atestado e confirmado, palavras de Camila: Nada mais Fernandesco que o signo de leão,e nada mais leonino que a Fernanda.]

Inteiramente Leonina, com muito orgulho!


 

08 janeiro 2011


Saíram de casa com uma certeza inegociável: A noite iria render. Não lembrariam amarras nem lágrimas de antigas paixões desfeitas, a vida estaria resumida ali, naquele momento, e eles iriam fazer o melhor que pudessem. Eram ricos, belos, livres e, no alívio de fazer as próprias escolhas, iam se colocar à prova, corpo e alma na pista. Como quem atrai o que emite, tão logo deslizaram pista a dentro, os olhos se encontraram, excitante provocação. Foi um 'olho no olho' certeiro, sinal definitivo de que a noite prometia quentes emoções.
Ela, milimetricamente encaixada em um vestido roxo, elegante e sensual, tão curto que quase lhe revelava o talento. Cabelo liso, escuro, completava o mistério dos olhos castanhos expressivos, e a simpatia mais cruel de todas, que aprisiona quando se mostra em um simples sorriso tímido. Ele, olhos negros e suculentos feito jabuticaba de vez, cabelo molhado propositalmente com ar de desleixo, espremendo peitoril e outras qualidades em uma camisa bem passada sob um colete, tudo combinado com a calça social,impecável.
Era atração e era fatal. Buscaram-se em todos os cantos, em todas as músicas, em todas as conversas, em todos os olhares, mas o encontro lhes aguardava no fim da noite, já fora da boate, em clima de decisão como todo fim de festa. Se esbarraram como se quisessem tudo, ali mesmo, sem disfarçes. Ela sorriu, era toda dentes e rubor. Ele piscou, lépido, cauteloso talvez, claramente fagueiro. Foram para o apartamento dela buscar o que queriam, ainda, perder.
Chegaram ao quarto como um temporal inesperado, derrubando vergonha e móveis com a mesma intensidade. Mão quente na cintura dela, puxou-a para si, língua entre os dentes, e tomaram isso como passaporte para o paraíso. Carente de afeto, percorreu o sutiã, ela respondia com a língua trêmula na orelha a encorajá-lo. Mal se distraiu, ela desceu a mão. Ardendo em chamas, livraram-se da última peça, nas marcas de elástico da lingerie ele se perdeu em beijos. Franjinha no olho, pinta no seio direito, coxa grossa. Ele parou para admirá-la, nunca mais foi o mesmo. Escapou-lhe até um pigarro de fumante, ele que não fumava.  O braço dela, poderoso, apertava-o no frenesi da paixão, eram um só desejo mergulhado em chamas, e desejavam deliciosamente queimar. Ele exigiu todas as variações, cima, lado, baixo, cabeça trocada e, na falta de chicote, batia com a mão aberta. Ela exploráva-o como terra desconhecida, e pedia mais, quanto mais ele dava. E foi assim a madrugada toda, um desejo que grudou-lhes como fossem um só corpo, se desejando, se provando, gosto bom de tocar as partes íntimas da liberdade.
Gemidos, sussuros, e enfim gritos. Sensação de trabalho feito, muito bem feito. Satisfeitos como nunca, largaram-se um ao lado do outro, a sentirem o fluxo que ainda os matinham unidos, degustando, agora com calma, o gosto do prazer, sobremesa da perdição. Dormiram sem culpa, sem roupa. Mas então a manhã chegou justa e severa à cobrar a vida que os esperava, fazendo do que há pouco era realidade concreta e literalmente palpável, uma mera lembrança perdida na vontade de tocar o abstrato. Ela não levantou, de forma que não viu ele sair, virar apenas um vulto, florecer em mancha negra a deslizar no corredor, sumir no elevador. Mas não queria, e nem precisava, ouvir a porta fechar para saber o que acontecia ali. Era o de sempre, ela ficaria ali o resto do dia, saboreando migalhas do prazer amanhecido, sem um nome, telefone, ou bilhete sequer. Nenhuma novidade, ela sabia que enquanto fosse brisa doce ia estar constantemente vulnerável à passagem efêmera e avassaladora de qualquer vendaval.

05 janeiro 2011

Há muito não fantasio de amor,
como quem desistiu de amar.
Na verdade, apenas o verso calou,
porque, enfim,o coração vai casar.