Eram dois que se conheceram de repente, num cruzar rápido, e desgostoso, pelas prateleiras do mercado. Ela sabia quem ele era, já havia notado a presença silenciosa dele em sua sala, na faculdade. Ele não a conhecia, e achou até que preferia dessa forma. Mas os dias foram passando e, daquele primeiro encontro vazio no mercado, surgiu um coleguismo com grande potencial, mas que não conseguiu anunciar a profundidade do que estava por vir.
Passaram juntos por dias de luta, tristeza, preguiça, decepção, alegria, amor, saudade. Dias em que, mesmo não dando o braço a torcer, bastaram-se, ele pela presença dela, ela pelo cheiro dele. E construíram assim, propositalmente 'deixando rolar' uma amizade com ares de antiga,sólida, que ao mesmo tempo caracterizava amor novinho, paixão incerta e inocente. Mas era cedo demais pra isso, e as condições, os "quês e porquês"... Não, não, isso já era demais.
Até que então a falta foi suprida, o abraço encaixou perfeito, e a mão, quando fazia carinho, afagava a alma, não apenas a pele. Tudo o que viviam juntos era mais intenso, mais verdadeiro, extremamente mais prazeroso, de modo que estar com ele deixava ela calma, sentindo algo como paz, e ela passou a ter necessidade de vê-lo. Para ele estar com ela era como desfrutar de um passeio no bosque aproveitando o dia lindo, como sorrir por motivos inocentes,era quase como ser feliz.
Mas as coisas não são assim, sentimentos não podem simplesmente surgir e crescer infinitamente, sem freio. Há momentos na vida que o tempo cobra o que vai ser dali em diante, e mesmo que não seja tomada nenhuma decisão, um rumo deve ser escolhido, pelo menos. E agora estavam os dois, atônitos, perseguidos noite e dia pelo que já são, o que querem, e o que poderiam ser. Se nada fizerem, tudo continua assim: Dois que são um, um companheirismo absoluto, um completar secreto, e continuarão a chamar uma paixonite oculta, um amor de feição, apenas de amizade.
Se resolverem mudar, recomeçam assim: Amizade que cresceu e floriu, necessidade imensa um do outro, sentimento inexplicavel e até impossivel, mas exatamente por isso gostoso de ser vivido, e vão chamar a grande amizade, enfim de paixão, de amor primaveril.
É que o mesmo tempo que aproxima, afasta, e entre esses extremos cabe a cada um viver, aproveitar e, acima de tudo, experimentar. Que ele se resolva logo, escolha bem, sinta e viva tudo o que lhe for permito na companhia dela. Que ela seja mais intensa, mantenha a doçura e o abraço que é só dele, e esteja ali sempre por ele, pra ele. E que estes dois nunca se esqueçam que, independente de esta relação continuar a ser como água, pura, simples e essencial, ou que ela passe a ser como o fogo, voraz, intenso e delicioso, nunca deixarão de ser os dois que eram um só, unidos por um sentimento que desconhece, e por isso dispensa, explicações.
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