27 junho 2010

São poucos os pavios que me acendem,
mas as palavras vivem em um constante incediar-me.
Em meus versos sou frágil, inflamável, chama viva à sua espreita.
Acabo sempre assim, 
inteira de interrogações,
barrada na frieza das tuas reticências.

Cobra Criada

Me descrevo em palavras, para que você me aceite em versos.
Cativante, eu chego como quem não quer nada sabendo que vai ganhar tudo, troco olhares e,às vezes, piscadelas como quem entende a linguagem a corporal, atraio como se fosse a presa para, logo,mostrar-me caçador. Envolvo, conquisto, dou trela, dou corda, mas quem segura é você, e o enforcamento vem na continuação. Não tiro os pés do chão, porque, de quedas, finquei raízes no solo, mas os faço voarem, flutuo aos poucos, iludo para manter o clima. Se quiser me conhecer, estou aqui, a minha simpatia por certo te conquistará. Se quiser confiar em mim, estou aqui, meu carinho por certo te convencerá. Se quiser andar comigo, estou aqui, de mãos dadas por certo te guiarei e protegerei. Mas não me faça deusa se não pode vê-la em mim. Não me ache perfeita se tolera meus defeitos. Não me admita como sua se não tiver propriedade para tal. Não tenha medo de me perder se não houver a certeza de ter me encontrado. Não me ache doce se não provou além da simpatia, se não mordeu a pimenta. Não me deseje intensamente se não pode saciar-me a sede, a fome, a vontade, a existência.Acima de tudo, não me ame se não deseja sofrer a dor da não-correspondência, da indiferença, do esquecimento. 
Meus amores são imperfeitos e passageiros, bem como vocês.

20 junho 2010

Hoje ela sabe, jamais vai morrer de amor novamente.
Porque, de amor, só se morre uma vez, eternamente.

10 junho 2010

Eram dias doces, de amar sem medidas, de não ter medidas para amar.
De carinho incontrolável, constante, de juras eternas à todo instante.
Eram dias quentes, do calor do abraço, de companheirismo, fidelidade,
de promessas clássicas, risos espontâneos, vestígios de uma aparente felicidade.
Enxugo nos olhos a saudade de um amor que já não vive.

Me desculpem

Que me desculpem os saudosos, não os procuro por falta de tempo, é verdade, por falta de estímulo, não nego, por falta até mesmo de vontade, confesso. Que me desculpem os que esperam respostas, não respondo por falta de palavras, por falta de razões, por achar desnecessário. Que me desculpem os preocupados, não sou a mesma por falta de convicção, por falta de persistência, por falta de amor-próprio.
Que me desculpem todas as boas almas que em mim depositam carinho, devotam respeito, estabelecem laços, entregam amor, me desculpem! É com pesar que admito estar ausente, estar distante, ou melhor, não estar em nada, em nenhum lugar aonde possam me achar. E pior do que isso, admito ser tudo uma grande falta de interesse que talvez não possa ser explicado, mas ao menos uma breve explicação ainda posso oferecer-lhes.
É que este coração, desta vez quebrado e não consertado, chora dores de amores frágeis, quebradiços, ilusórios.Cortam, como navalha, lembranças de sentimentos que talvez nunca existiram, de uma entrega em vão, de consideração jogada ao vento. E desse amor que dói, que foge, que vai embora, farta estou. Tão logo me recupere, ou mais corajosa fique, voltarei a ser quem era, quem quis ser, quem mereciam que eu fosse. Mas por enquanto, grito nomes arrancados da agenda, rasgos fotos que nunca tirei, lembro de juras que nem foram ditas, escrevo páginas rabiscadas sobre um coração que não sabe mais bater.

Insônia (moral)

Hoje passei em frente ao cemitério e na capela uma pessoa estava sendo velada. Ao redor do caixão aquela velha aglomeração, pessoas chorando, rezando, alguns poucos curiosos à procura de informação, outros mantendo pose de compaixão pela vítima que, na realidade, nada mais pode sofrer. Uma pessoa chamou-me atenção, dentre tantos sofrimentos ali havia um mais forte, mais real, talvez por ser a mãe, mas não uma mãe qualquer, a mãe daquele corpinho ali,uma mãe agora órfã de filho, órfã de um amor que só ela sabe existir nesse famoso laço de maternidade, órfã de esperança por um mundo justo. A pretexto de estar atrasada pra qualquer compromisso inventado, saí daquele lugar que tanto me entristece, saí daquele cheiro, daquela visão, daquele frio, daquela desilusão que a morte deixa em toda parte. Mas foi justamente ao sair que vi com novos olhos a situação em que estava, e sempre estive.
Logo na esquina seguinte à capela, crianças brincavam de futebol em um pequeno campinho de barro judiado, corriam por todos os lados, gritavam, riam, como se a vida fosse aquele momento, único e precioso. Ali perto, jovens conversavam alto, entre sorrisos e gingados típicos, como se a vida se resumisse ali, no breve espaço de estarem juntos 'curtindo'. Todos a minha volta estavam tão envolvidos com si mesmos que me irritavam. Como podiam continuar a vida normalmente se, próximo deles, havia uma criança morta e uma mãe com um sofrimento infinito? Quão frio o mundo consegue ser para continuar nessa normalidade, no 'tanto faz tanto fez' enquanto, ali do lado, alguém perdia a vida tão cedo?
Assim, de súbito, fui tomada por esse sentimento de injustiça, de raiva do mundo,raiva de todos, por estarem vivendo suas vidas enquanto alguém já não podia fazê-lo. Será que ninguém se importa com a dor alheia?
Contudo, prezados leitores, não nos deixemos enganar, a verdade dói e eu logo começaria a sentir. Não padeço da hipocrisia moral que move o mundo, contarei-lhe, pois, o que enfim tive coragem que contar-me também.Com qual propriedade eu poderia cobrar qualquer reação diferente do mundo se as minhas próprias reações vão ao encontro dessa insensibilidade? Vejam bem, me dei conta de que a cada momento triste e de dor alheia como esse eu, sim EU, estava indiferente, exatamente do modo como aquilo me irritava agora.
Eu estava brincando com meus brinquedos quando Ayrton Senna morreu e, pela primeira vez, vi um homem chorar, se desesperar, e gravar com lágrimas uma canção que o emocionaria por muitos anos, meu pai. Eu estava na aula de matemática quando morreu um dos melhores comediantes brasileiros, alguém que ninguém imagina que possa nos deixar de fazer sorrir, quando um ataque cardíaco tirou o gracejo dos lábios de Bussunda. Eu estava conversando com amigos quando a 'eterna' Dercy Gonçalves deixou o palavreado solto que era sua marca registrada, e foi alegrar o céu. Eu recém abria os presentes, um dia depois do meu aniversário, quando uma verdadeira dama faleceu, minha bisavó que, em seus ultimos minutos, fez questão de demonstrar orgulho de mim,e me ensinar como uma mulher de fibra morre com dignidade, em paz. Eu estava tranquila na aula enquanto mais de 200 mil pessoas morriam em um terremoto no Haiti, muitos brasileiros bondosos, saudosos de suas famílias, e muitas pessoas com um fio sequer de esperança perderam tudo, inclusive a vida. Eu estava por aí pelas ruas, pela vida quando, ao meu redor, o inimigo à espreita ceifava vidas silenciosamente, eu estava à toa quando a 'gripe suína' veio estabelecer as regras do jogo. Eu voltava da escola quando uma notícia inacreditável surgiu, para tirar-me o sono por dias e, como uma troca, me deixar a tristeza por noites, morria o suposto imortal Michael Jackson, aquele ídolo, rei, ícone, tipo de pessoa que nunca morreria. Eu estava indo ao parque de diversões quando um telefonema curto, mas certeiro, pôs meu mundo à baixo, e pôs meu coração em frangalhos para sempre, meu avô havia falecido, naquele momento, e eu, não crente ou inocente, fui brincar no parque, como quem não sabia, mas conheceria mais tarde a dor de não ter, a dor do nunca mais.
Posto esses exemplos, digam-me leitores, como poderia eu cobrar reações diferentes do mundo? Eu mesma estava indiferente até mesmo nas situações que me envolviam. Até quando a morte tocou meu braço, bateu à minha porta, levou meu avô e deixou uma dor incontrolável, inexplicável, eu estava lá, indiferente. É.. Novamente, a verdade dói, mas deve ser dita. E, é com essa clareza, que desfaço minhas utopias, o mundo gira e a vida continua mesmo, naturamente. Assim como eu.