Hoje passei em frente ao cemitério e na capela uma pessoa estava sendo velada. Ao redor do caixão aquela velha aglomeração, pessoas chorando, rezando, alguns poucos curiosos à procura de informação, outros mantendo pose de compaixão pela vítima que, na realidade, nada mais pode sofrer. Uma pessoa chamou-me atenção, dentre tantos sofrimentos ali havia um mais forte, mais real, talvez por ser a mãe, mas não uma mãe qualquer, a mãe daquele corpinho ali,uma mãe agora órfã de filho, órfã de um amor que só ela sabe existir nesse famoso laço de maternidade, órfã de esperança por um mundo justo. A pretexto de estar atrasada pra qualquer compromisso inventado, saí daquele lugar que tanto me entristece, saí daquele cheiro, daquela visão, daquele frio, daquela desilusão que a morte deixa em toda parte. Mas foi justamente ao sair que vi com novos olhos a situação em que estava, e sempre estive.
Logo na esquina seguinte à capela, crianças brincavam de futebol em um pequeno campinho de barro judiado, corriam por todos os lados, gritavam, riam, como se a vida fosse aquele momento, único e precioso. Ali perto, jovens conversavam alto, entre sorrisos e gingados típicos, como se a vida se resumisse ali, no breve espaço de estarem juntos 'curtindo'. Todos a minha volta estavam tão envolvidos com si mesmos que me irritavam. Como podiam continuar a vida normalmente se, próximo deles, havia uma criança morta e uma mãe com um sofrimento infinito? Quão frio o mundo consegue ser para continuar nessa normalidade, no 'tanto faz tanto fez' enquanto, ali do lado, alguém perdia a vida tão cedo?
Assim, de súbito, fui tomada por esse sentimento de injustiça, de raiva do mundo,raiva de todos, por estarem vivendo suas vidas enquanto alguém já não podia fazê-lo. Será que ninguém se importa com a dor alheia?
Contudo, prezados leitores, não nos deixemos enganar, a verdade dói e eu logo começaria a sentir. Não padeço da hipocrisia moral que move o mundo, contarei-lhe, pois, o que enfim tive coragem que contar-me também.Com qual propriedade eu poderia cobrar qualquer reação diferente do mundo se as minhas próprias reações vão ao encontro dessa insensibilidade? Vejam bem, me dei conta de que a cada momento triste e de dor alheia como esse eu, sim EU, estava indiferente, exatamente do modo como aquilo me irritava agora.
Eu estava brincando com meus brinquedos quando Ayrton Senna morreu e, pela primeira vez, vi um homem chorar, se desesperar, e gravar com lágrimas uma canção que o emocionaria por muitos anos, meu pai. Eu estava na aula de matemática quando morreu um dos melhores comediantes brasileiros, alguém que ninguém imagina que possa nos deixar de fazer sorrir, quando um ataque cardíaco tirou o gracejo dos lábios de Bussunda. Eu estava conversando com amigos quando a 'eterna' Dercy Gonçalves deixou o palavreado solto que era sua marca registrada, e foi alegrar o céu. Eu recém abria os presentes, um dia depois do meu aniversário, quando uma verdadeira dama faleceu, minha bisavó que, em seus ultimos minutos, fez questão de demonstrar orgulho de mim,e me ensinar como uma mulher de fibra morre com dignidade, em paz. Eu estava tranquila na aula enquanto mais de 200 mil pessoas morriam em um terremoto no Haiti, muitos brasileiros bondosos, saudosos de suas famílias, e muitas pessoas com um fio sequer de esperança perderam tudo, inclusive a vida. Eu estava por aí pelas ruas, pela vida quando, ao meu redor, o inimigo à espreita ceifava vidas silenciosamente, eu estava à toa quando a 'gripe suína' veio estabelecer as regras do jogo. Eu voltava da escola quando uma notícia inacreditável surgiu, para tirar-me o sono por dias e, como uma troca, me deixar a tristeza por noites, morria o suposto imortal Michael Jackson, aquele ídolo, rei, ícone, tipo de pessoa que nunca morreria. Eu estava indo ao parque de diversões quando um telefonema curto, mas certeiro, pôs meu mundo à baixo, e pôs meu coração em frangalhos para sempre, meu avô havia falecido, naquele momento, e eu, não crente ou inocente, fui brincar no parque, como quem não sabia, mas conheceria mais tarde a dor de não ter, a dor do nunca mais.
Posto esses exemplos, digam-me leitores, como poderia eu cobrar reações diferentes do mundo? Eu mesma estava indiferente até mesmo nas situações que me envolviam. Até quando a morte tocou meu braço, bateu à minha porta, levou meu avô e deixou uma dor incontrolável, inexplicável, eu estava lá, indiferente. É.. Novamente, a verdade dói, mas deve ser dita. E, é com essa clareza, que desfaço minhas utopias, o mundo gira e a vida continua mesmo, naturamente. Assim como eu.
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