Eis que da pele escorre desejo, na cabeça há um emaranhado de pensamentos sobre uma mesma figura e, daquilo que não era nada, que era um vazio de não ser absolutamente nada que se defina concreto, nasceu um 'nós'. Ou como você disse, um "Eu e Você."
Era cedo quando você disse que não sabia o que éramos. Na verdade não era tão cedo assim, era já madrugada quando li isso, por que, aliás, você não disse, escreveu. E o fez numa carta grande, de páginas carinhosamente tímidas que queriam mais do que te apresentar, mais do que me felicitar pelo aniversário, queriam mais, assim como você. Eram parágrafos que anunciavam a sua chegada, o seu dominar no meu império, o início desse seu reinado.
Lembro que foi na segunda folha que você nos resumiu ao 'indefinido'. Disse, em letras cautelosas, mas sugestivas, que não sabia o que era tudo aquilo, que não era amizade, mas também não era amor de eu e você. E deste momento em diante, ou melhor, desta linha em diante estava claro que esse dia em que teriamos de ser alguma coisa iria chegar e, mais precisamente, estava claro que o meu eu iria tentar de todas as formas ser amor com você.
Dito e feito.
Os dias passaram e a falta de nome também passou. Éramos, enfim. E éramos amor mesmo, e este não fora decretado antes apenas por medo, insegurança, ou covardia, mas existia desde o início. Cada dia que passava, mais precisava de você, do seu carinho, do seu cheiro peculiar, e do calor que eu sentia ao seu lado, mesmo quando não estávamos sob o sol da tarde. Alguma coisa sempre esquentava em mim na sua presença, talvez fosse sua pele morena. Quem sabe.
O fato é que tão logo viramos 'nós', as coisas evoluíram na velocidade da luz. Passamos do sofá esquecido, para o corredor isolado e de luz piscante, depois pra sua casa, quarto, banheiro e, enfim, para minha cama. Mesmo sendo tão rápidos os momentos que nos construíram, eu já esperava por eles, em cada um de seus detalhes, cada um de seus defeitos, nessas mínimas frações erradas que fizeram de tudo que vivíamos um inteiro, perfeito.
E foi assim que, desejando cada vez mais, me mantive súdita fiel do teu reinado, sempre esperando anoitecer para despir-te do medo, da vergonha, da coroa, do poder, das tuas vestes. Sempre tão precisamente ao encontro do meu gosto, me satisfazendo inteira, como amiga, mulher, e amante. E melhor ainda do que madrugar noite a dentro em teus carinhos, era amanhecer entrelaçada em tuas pernas, encaixada nos teus braços, à procura de mais um beijo, e mais um, e mais outro, e mais, mais.
Agora aqui bate um coração medíocre, implorando pela nobreza do teu amor para bater. E seguimos assim, sendo 'nós' entre beijos que calam discussões, e entre discussões que pedem por beijos, sustentamos o amor que já nasceu do nosso jeito, do nosso encaixe, no formato preciso de existir em nós. E vendo fotografias, daqui a vários anos, relembraremos de quando não sabíamos, ou fingiamos não saber, o que éramos, mas mantínhamos em off uma vontade incontrolável de sermos um, e da pressa que tínhamos para parar o tempo e o espaço nessa eternidade do nosso amor de eu e você.
Vem, estou te esperando!
14 setembro 2011
12 setembro 2011
Entre água e fogo.
Eram dois que se conheceram de repente, num cruzar rápido, e desgostoso, pelas prateleiras do mercado. Ela sabia quem ele era, já havia notado a presença silenciosa dele em sua sala, na faculdade. Ele não a conhecia, e achou até que preferia dessa forma. Mas os dias foram passando e, daquele primeiro encontro vazio no mercado, surgiu um coleguismo com grande potencial, mas que não conseguiu anunciar a profundidade do que estava por vir.
Passaram juntos por dias de luta, tristeza, preguiça, decepção, alegria, amor, saudade. Dias em que, mesmo não dando o braço a torcer, bastaram-se, ele pela presença dela, ela pelo cheiro dele. E construíram assim, propositalmente 'deixando rolar' uma amizade com ares de antiga,sólida, que ao mesmo tempo caracterizava amor novinho, paixão incerta e inocente. Mas era cedo demais pra isso, e as condições, os "quês e porquês"... Não, não, isso já era demais.
Até que então a falta foi suprida, o abraço encaixou perfeito, e a mão, quando fazia carinho, afagava a alma, não apenas a pele. Tudo o que viviam juntos era mais intenso, mais verdadeiro, extremamente mais prazeroso, de modo que estar com ele deixava ela calma, sentindo algo como paz, e ela passou a ter necessidade de vê-lo. Para ele estar com ela era como desfrutar de um passeio no bosque aproveitando o dia lindo, como sorrir por motivos inocentes,era quase como ser feliz.
Mas as coisas não são assim, sentimentos não podem simplesmente surgir e crescer infinitamente, sem freio. Há momentos na vida que o tempo cobra o que vai ser dali em diante, e mesmo que não seja tomada nenhuma decisão, um rumo deve ser escolhido, pelo menos. E agora estavam os dois, atônitos, perseguidos noite e dia pelo que já são, o que querem, e o que poderiam ser. Se nada fizerem, tudo continua assim: Dois que são um, um companheirismo absoluto, um completar secreto, e continuarão a chamar uma paixonite oculta, um amor de feição, apenas de amizade.
Se resolverem mudar, recomeçam assim: Amizade que cresceu e floriu, necessidade imensa um do outro, sentimento inexplicavel e até impossivel, mas exatamente por isso gostoso de ser vivido, e vão chamar a grande amizade, enfim de paixão, de amor primaveril.
É que o mesmo tempo que aproxima, afasta, e entre esses extremos cabe a cada um viver, aproveitar e, acima de tudo, experimentar. Que ele se resolva logo, escolha bem, sinta e viva tudo o que lhe for permito na companhia dela. Que ela seja mais intensa, mantenha a doçura e o abraço que é só dele, e esteja ali sempre por ele, pra ele. E que estes dois nunca se esqueçam que, independente de esta relação continuar a ser como água, pura, simples e essencial, ou que ela passe a ser como o fogo, voraz, intenso e delicioso, nunca deixarão de ser os dois que eram um só, unidos por um sentimento que desconhece, e por isso dispensa, explicações.
Passaram juntos por dias de luta, tristeza, preguiça, decepção, alegria, amor, saudade. Dias em que, mesmo não dando o braço a torcer, bastaram-se, ele pela presença dela, ela pelo cheiro dele. E construíram assim, propositalmente 'deixando rolar' uma amizade com ares de antiga,sólida, que ao mesmo tempo caracterizava amor novinho, paixão incerta e inocente. Mas era cedo demais pra isso, e as condições, os "quês e porquês"... Não, não, isso já era demais.
Até que então a falta foi suprida, o abraço encaixou perfeito, e a mão, quando fazia carinho, afagava a alma, não apenas a pele. Tudo o que viviam juntos era mais intenso, mais verdadeiro, extremamente mais prazeroso, de modo que estar com ele deixava ela calma, sentindo algo como paz, e ela passou a ter necessidade de vê-lo. Para ele estar com ela era como desfrutar de um passeio no bosque aproveitando o dia lindo, como sorrir por motivos inocentes,era quase como ser feliz.
Mas as coisas não são assim, sentimentos não podem simplesmente surgir e crescer infinitamente, sem freio. Há momentos na vida que o tempo cobra o que vai ser dali em diante, e mesmo que não seja tomada nenhuma decisão, um rumo deve ser escolhido, pelo menos. E agora estavam os dois, atônitos, perseguidos noite e dia pelo que já são, o que querem, e o que poderiam ser. Se nada fizerem, tudo continua assim: Dois que são um, um companheirismo absoluto, um completar secreto, e continuarão a chamar uma paixonite oculta, um amor de feição, apenas de amizade.
Se resolverem mudar, recomeçam assim: Amizade que cresceu e floriu, necessidade imensa um do outro, sentimento inexplicavel e até impossivel, mas exatamente por isso gostoso de ser vivido, e vão chamar a grande amizade, enfim de paixão, de amor primaveril.
É que o mesmo tempo que aproxima, afasta, e entre esses extremos cabe a cada um viver, aproveitar e, acima de tudo, experimentar. Que ele se resolva logo, escolha bem, sinta e viva tudo o que lhe for permito na companhia dela. Que ela seja mais intensa, mantenha a doçura e o abraço que é só dele, e esteja ali sempre por ele, pra ele. E que estes dois nunca se esqueçam que, independente de esta relação continuar a ser como água, pura, simples e essencial, ou que ela passe a ser como o fogo, voraz, intenso e delicioso, nunca deixarão de ser os dois que eram um só, unidos por um sentimento que desconhece, e por isso dispensa, explicações.
09 setembro 2011
Amor de Banheira
É que o amor, por mais furioso que comece, sempre chega em uma fase ‘ponto morto’. Pode
ser a fase de chama branda, aquela em que já não há brasa viva faiscando, mas
também, ao contrário da tristeza do ‘morrer do fogo’, pode ser apenas o
conforto do ‘morno’, aquela mansidão de
uma banheira em que a gente quer se deixar ficar. Aquele amálgama de tanta
coisa que já foi vivida, agora deixada em algum canto onde não vá atrapalhar a
passagem. Porque em matéria de amor, aparar todas as arestas, por mais artista
da convivência que se seja, é utopismo simples, diria até inocente. No máximo,
consegue-se ‘podar’ umas e outras quinas, às vezes nossas, às vezes do outro. E
os cantos vão ficando lotados do que abdicamos, relevamos, fazemos vistas
grossas. Vez ou outra, tropicamos numa delas e acaba machucando, resistimos,
mesmo que incomodados, e seguimos. Seguimos pro nosso quentinho, morninho, pro
nosso amor de banheira, cuja profundidade não oferece mais nenhum perigo, e cujo
conforto já não significa completude, muito menos felicidade.
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