26 dezembro 2010

De cada amor herdarás apenas o cinismo, que te aprisiona, te consome, te tortura, e faz de ti apenas ilusões reduzidas à pó. Não é a "melodramaticidade" da Fernanda dando as caras novamente,é apenas a lei do amor, consequências de deixar um pouco de vida em cada esquina por onde passava, em cada boca que provava, em cada corpo que usava. Confissões de alguém que insiste em viver parada à beira do abismo, abismo que cavou com as proprias decepções.

Pensamentos soltos

Eu que pouco falo do tempo, estive a pensar sobre seus mistérios. Acho que o tempo só é belo porque nos rouba a juventude, isso é um fato. Posto essa semi-certeza, sua vulnerabilidade se torna sarcástica, de tom quase cruel. O tempo é muito quando alguém nos deixa sem nem breve despedida. O tempo é muito quando o regresso de alguém por quem sofremos demora uma eternidade dolorosa para chegar. O tempo é pouco quando estamos amando a vida e, principalmente, vivendo por amor. O tempo é pouco quando vamos em busca do que não experimentamos ainda. Mas o tempo não é só isso, ao mesmo tempo que se faz imponente subestimando a alma humana, faz-se criança birrenta, que necessita atenção.
Se houvesse um 'manual do tempo' constaria apenas uma página: Advertências: Pode te dar e te tirar tudo. Modo de Usá-lo: Aproveite ao máximo. Aceitando ou não, querendo ou não, o tempo é responsável por tudo, e muitas vezes o culpado também.Se deixou alguns anos te escorrem das mãos como sabão, saiba que os anos que ainda te restam sabem perdoar. Aproveite cada minuto enquanto eles chegam com vivacidade à tua porta, pois enquanto o fizeres, senhor do tempo serás.

Ana

Pequena, suave, delicada, era a pipoca mais doce, sem "nem' ou 'talvez'. Aquele bordado inglês no suéter com que dormia não negava, era inteira amores e transbordava um sempre querer mais. Ria dos que não compreendiam as mulheres, afinal era era um livro claro, objetivo, de fácil entendimento: queria ser a bela mais bela entre todas elas, e não vacilava. Ela era Ana, Ana de Amsterdã.

25 dezembro 2010

Assim era o Ícaro.

Ele era um pauta clara, de tons leves, porém precisos, harmoniosos, preenchidos com amor, e por amor. Fazia dos lugares onde passávamos lindos castelos, bosques, lugares dignos que estarem escondidos ao final de um arco-íris, e fazia isso para que a princesa aqui, existente apenas em sua mente, passasse desfrutando o melhor dos nossos momentos. Contudo, para ela, não havia nada de mais importante e especial do que a presença dele, e ela nunca esqueceu a paz que lhe trazia.
Ele era um projeto posto em prática, um rascunho que foi à tona, mas por capricho, por vontade, ou por charme, sendo quase feito de lápis, era, no entanto, incorrigível. Quando cantava, não era a melodia, era mais a voz sincera, doce a me acalmar, era como se o mundo se resumisse no breve espaço de ouvi-lo, senti-lo, abraçá-lo. Eram notas carinhosas que me atingiam com tudo, em cheio, direto do lado esquerdo do peito, eram laços feitos com carinho, sinceridade, segurança, respeito e, principalmente, amor primeiro, aquele que nasce na inocência, na doçura e no bem-querer da adolescência, iniciando a primavera das paixões primeiras. Assim era o Ícaro, amor pautado em versos simples, carinhosos, inesquecíveis.


[ Aqui está sua homenagem esperado há muitos meses né Ícaro, desculpe a demora! hehe ]

20 dezembro 2010

Introdução

Um dia ela vai abrir o coração, se deixar transparecer aos seus olhos confiáveis, desnudar-se em alma para que você a compreenda, aceite-a, e então, quem sabe, ame-a.
Ela vai dizer que entre a porta e a janela da própria alma vê um espaço inexistente, vê um buraco sem tamanho, uma inocência que nunca teve, vê ela e vê você em sintonia espiritual e carnal, enfeitando noites frias e dias quentes de primavera. Vai dizer que quando emocionalmente fraca, é hipersensível e facilmente sugestionável. Não é capaz de oferecer consolo a alguém que sofre, porque ela mal consegue suportar sua própria angústia. Vai dizer que sente mais do que pensa, pensa mais do que age, tem bem menos do que quer e muito mais do que espera. Também dirá que um dia foi doce, mas descobriu que o valor e o desejo estão atrelados ao picante, ao misterioso sabor da inconseqüência, da liberdade de não prender e não sentir-se preso.
Vai dizer que passou por muitas noites ‘fora do comum’ que acabaram em um simples ‘dia seguinte’, e que, destes, guardou apenas três gostos na boca: de vodca, de lágrimas e de cigarro barato. Vai dizer que quando é fria, é distante. Quando quente, é perigosa. Quando magoada, é calculista. Quando dorme, é donzela. Quando acorda, é malandra. Quando se limita, é infinita. Quando livre, é insana. Quando presa, é tua.Vai dizer que de tantos que a habitam, acabou expulsa de si mesma. Que há pouco tempo descobriu que a única forma de sair do inferno é ser o próprio diabo, e que isso não é necessariamente um sacrifício. Vai dizer que deita na cama todas as noites, abre um livro e sacia, aos poucos, a fome de palavras que outras bocas disseram por ela. E que neste mesmo livro, sempre encontra aquele velho abrigo, o novo amigo que surge ao longo das páginas, como na vida.
Vai dizer que lê pra respirar, e escreve pra viver. Que não vai te ligar para saber como está a cada meia hora, menos ainda dizer que te ama todos os dias, e, embora distante do que pareça, ela bem sabe que quando o orgulho entra pela porta, o amor sai pela janela. Vai dizer que ela é um mero conjunto de fragmentos existentes, perdidos no espaço de não ser quem deveria, para ser o personagem que deseja. E, ao final desse singelo prefácio de sua alma, vai dizer que se sente grata por ter em quem confiar, ainda que não o faça, por direito de precaução ou coração outrora partido, e, do livro desta vida, caso você não possa ou não queria ler a história inteira, ela lhe oferece a sinopse: A cada alvorecer ela nasce e morre um bocadinho do que já foi um dia.



18 dezembro 2010

Here comes the bride ♫ ♫

De repente estávamos ali, intimamente ligados, abraçados a uma única esperança. As palavras não foram necessárias. Era um desses momentos breves, de claridade, que definem todos os demais ao longo da vida. Agora estavam noivos, e ela já ouvia se aproximar o doce som daquele "até que a morte os separe" tão incansavelmente aguardado.
Foi, pisando duro, tão duro quanto fizera seu coração bater.
Foi, maldizendo aquele antigo carinho,
dengava tanto que a doçura era quase palpável.
Foi, fingindo tranquilidade e certeza,
tão certo como um dia jurou o tal "pra sempre".
Foi, negando um amor inacreditavelmente evidente,
aceso e permanente em chamas inesquecíveis, porém esquecendo que,
há bem pouco tempo, fez dele sua própria essência.
Foi, mas vai voltar.

23 outubro 2010

A rosa que você me deu está aqui.
O livro que você me deu também.
O amor que você me deu, não vi.
Talvez foi já dado à alguém.

03 outubro 2010

Nas teias fortes, porém indecisas, desse amor

Toca o telefone, já não me pergunto quem é, sei que é você, prenunciado ao primeiro toque pela disparada frenética dos batimentos aqui dentro do meu peito. Toca o interfone, não preciso atender, sei que é você, ninguém mais vem ao meu encontro sem eu pedir, exatamente nos momentos em que eu preciso. E ver você se aproximando é sempre um risco, cardíaco ou moral, para não deixar o coração explodir de tanta loucura, nem passar vergonha dizendo algo que o entregue, que me entregue e ponha tudo a perder.
Muitas coisas eu já sei, você não me oculta nada, é um fato, contudo seus olhos insistem em revelar-me um algo mais, como um bilhetinho furtivo, um segredinho íntimo. O único problema são as coisas que eu não sei, e, pensando bem, são tantas...
Eu não sei se foi por rotina, pouca persistência, medo ou combinado, que estabelecemos nosso relação em amizade, quando Deus e o Mundo sabem que não é isso o que parecemos, o que merecemos, e nem queremos. Eu não sei porque você me liga tantas vezes, a qualquer hora, para papear, dizer que sente minha falta, que deseja me ver, e que volta a me ligar mais tarde, e liga mesmo. Eu não sei porque você me deu o controle de tudo, da sua vida, porque se deixa moldar pelo meu gosto, e se faz feliz com o que me faz feliz. Eu não sei porque você sente tanto ciúmes de alguém tão seu como sou eu, e fica bravo maldizendo os outros ou a situação, sabendo que no fim não era nada, tudo que não é você ou com você é nada. Eu não sei porque esse jeito tão possessivo de me amar, posto a minha própria existência ser toda dedicada a você. Eu não sei porque ainda chamamos o seu ciúmes, sua possessividade, seu amor atento e voraz a mim de proteção, zelo, se nós mesmos há muito não acreditamos. Eu não sei porque usamos a capa de amigos, se não somos, e se todos sabem que nunca fomos e nunca seremos. Eu não sei a quem ainda pensamos enganar, mas não está funcionando, e cada vez mais extinto fica o nosso pacto. Até que ele deixe de ser segredo.Ou deixe de existir. E eu permaneço em frente a uma tela fria, que acolhe palavras sempre tão sinceras, à espera da sua decisão, do seu sinal, para seguir adiante no texto desta página, ou virá-la e começar tudo novamente em páginas em branco. Já faz um tempo, mas estou aqui, espero por uma ligação sua, diferentes das costumeiras, uma ligação em que você ponha um ponta final nessa indecisão, nesse jogo de faz-de-conta, nesse esconde-esconde infantil.
Uma ligação dizendo que quer que eu seja madrinha do seu casamento.
Ou que me quer como noiva.

02 outubro 2010

Chega um dia em que até o mais livre dos pássaros é aprisionado. Não por acaso, muito dono de si, ele se deixa aprisionar. Talvez para sentir a dúvida de uma existência não- livre, a tentação do errado, da fuga, o medo da rotina, do tédio.E o tempo passa, a gaiola não é ruim, há comida, abrigo, e amor. 
Mas, comida e abrigo são oferecidos sempre e em qualquer lugar aos doces voadores.
E amor.. Ah! O amor nunca foi suficiente.
Eis que chega a hora tão temida, porém muitas vezes desejada. A porta da gaiola se abre, forçada ou espontânea, e ele voa.Praticamente se joga, uma entrega completa ao que de mais belo o mundo lhe tem a oferecer, na busca incansável de viver, permanentemente, no céu, sem nunca mais precisar tocar o chão. Vai livre e sereno, alçar vôos cada vez mais altos, sonhos cada vez mais bonitos, amores cada vez mais fortes.
E as gaiolas, estas sempre ficam, no passado e na lembrança. Passe o tempo que passar seja qual for a gaiola e os laços que o prendem, todo verdadeiro pássaro jamais deixa de voar. E eu...Encontro-te por aí, em algum lugar do céu, feliz e a festejar. Pois, pássaro que sou, não demora e logo voltarei a voar.

29 setembro 2010

O CONTRATO ( Tati Bernardi )

Combinamos que não era amor. Escapou ali um abraço no meio do escuro. Mas aquilo ali foi sono, não sei o que foi aquilo. Foi a inércia do amor que está no ar mas não necessariamente dentro de nós.A gente foi ao cinema, coisa que namorados fazem. Mas amigos fazem também, não? Somos amigos. Escapou ali um beijo na orelha e uma mão que quis esquentar a outra. Mas a gente correu pra fazer piadinha sexual disso, como sempre.Aí teve aquela cena também. De quando eu fui te dar tchau só com a manta branca e o cabelo todo bagunçado. E você olhou do elevador e me perguntou: não to esquecendo nada? E eu quis gritar: tá, tá esquecendo de mim. E você depois perguntou: não tem nada meu aí? E eu quis gritar: tem, tem eu. Eu sempre fui sua. Eu já era sua antes mesmo de saber que você um dia não ia me querer.Mas a gente combinou que não era amor. Você abriu minha água com gás predileta e meu sabonete de manteiga de cacau. E fuçou todas as minhas gavetas enquanto eu tomava banho. E cheirou meu travesseiro pra saber se ainda tinha seu cheiro. Ou pra tentar lembrar meu cheiro e ver se ele ainda te deixa sem vontade de ir embora. Mas ainda assim, não somos íntimos. Nada disso. Só estamos aqui, reunidos nesse momento, porque temos duas coisas muito simples em comum: nada melhor pra fazer. Só isso. É o que está no contrato. E eu assino embaixo. Melhor assim. Muito melhor assim. Tô super bem com tudo isso. Nossa, nunca estive melhor. Mas não faz isso. Não me olha assim e diz que vai refazer o contrato. Não faz o mundo inteiro brilhar mais porque você é bobo. Não faz o mundo inteiro ficar pequeno só porque o seu chapéu é muito legal. Não deixa eu assim, deslizando pelas paredes do chuveiro de tanto rir porque seu cabelo fica ridículo molhado. Não faz a piada do vampiro só porque você achou que eu estava em dias estranhos. Não transforma assim o mundo em um lugar mais fácil e melhor de se viver. Não faz eu ser assim tão absurdamente feliz só porque eu tenho certeza absoluta que nenhum segundo ao seu lado é por acaso.Combinamos que não era amor e realmente não é. Mas esse algo que é, é realmente muito libertador. Porque quando você está aqui, ou até mesmo na sua ausência, o resto todo vira uma grande comédia. E aquele cara mais novo, e aquele outro mais velho, e aquele outro que escreve, e aquele outro que faz filme, e aquele outro divertido, e aquele outro da festa, e aquele outro amigo daquele outro. E todos aqueles outros viram formiguinhas de nariz vermelho. E eu tenho vontade de ligar pra todos eles e falar: putz, cara, e você acha mesmo que eu gostei de você? Coitado.Adoro como o mundo fica coitado, fica quase, fica de mentira, quando não é você. Porque esses coitados todos só serviram pra me lembrar o quão sagrado é não querer tomar banho depois. O quão sagrado é ser absurdamente feliz mesmo sabendo a dor que vem depois. O quão sagrado é ver pureza em tudo o que você faz, ainda que você faça tudo sendo um grande safado. O quão sagrado é abrir mão de evoluir só porque andar pra trás é poder cruzar com você de novo.Não é amor não. É mais que isso, é mais que amor. Porque pra te amar mais, eu tenho que te amar menos. Porque pra morrer de amor por você, eu tive que não morrer. Porque pra ter você por perto um pouco, eu tive que não querer mais ter você por perto pra sempre.E eu soquei meu coração até ele diminuir. Só pra você nunca se assustar com o tamanho. E eu tive que me fantasiar de puta, só pra ter você aqui dentro sem medo. Medo de destruir mais uma vez esse amor tão santo, tão virgem. E eu vou continuar me fantasiando de não amor, só pra você poder me vestir e sair por aí com sua casca de não amor.E eu vou rir quando você me contar das suas meninas, e eu vou continuar dizendo “bonito carro, boa balada, boa idéia, bonita cor, bonito sapato”. E eu vou continuar sendo só daqui pra fora. Porque no nosso contrato, tomamos cuidado em escrever com letras maiúsculas: não existe ninguém aqui dentro.Mas quando, de vez em quando, o seu ninguém colocar ali, meio sem querer, a mão no meu joelho, só para me enganar que você é meu dono. Só para enganar o cara da mesa ao lado que você é meu dono. Eu vou deixar. Vai que um dia você acredita.’
                                                                                    - Tati Bernardi
 
-
{ Sim, a carapuça serve. É pra VOCÊ mesmo! }

07 setembro 2010

Sintoma de Saudade

E hoje, pela primeira vez, lembrou com carinho, não com tristeza,
de uma vida dita perfeita, de um passado ainda presente.
Calou a lágrima com um suspiro carinhoso e,
 por força do desejo ou descuido da emoção,
discou aqueles números outrora gravados no topo das chamadas discadas.
Aguardou ansiosa pela voz familiar, quem sabe rude, áspera,
 porém não menos aconchegante,
esperava conter a euforia e conseguir revelar o motivo de tal inesperado contato.
Estava ligando para dizer: 'Você me faz muita falta',e desta vez com sorrisos, não lágrimas. Contudo, para alívio do coração disparado ou angústia da alma saudosa, ela não atendeu.

02 setembro 2010

Ela não queria e, mesmo assim, seguia adiante.
Afinal, quando o barco já segue viagem,
se tentar fugir,
morre afogado.

15 agosto 2010

Cansou daquela companhia que, querendo proteger, aprisiona.
Cansou daquela companhia que, querendo aproveitar, gruda.
Cansou daquela companhia que, querendo dar carinho, abusa.
Cansou daquela companhia que, querendo abrigar, aperta.
Cansou daquela companhia que, querendo libertar, abandona.
Cansou daquela companhia que, querendo beijar, força.
Cansou daquela companhia que, querendo atenção, chateia.
Cansou daquela companhia que, querendo estar perto, foge.
Cansou das companhias que, querendo ser perfeitas, hoje são desnecessárias.
Hoje eu vou, mas eu vou .

13 agosto 2010

Uma coisa ela sabia: existia Amor.
Estava ali, sólido, vivo,
paciente a esperar do outro lado da linha.
Mas o telefone nunca tocava.

Braços dados com a solidão

Não se sentia só, contudo não havia uma alma sequer ao redor quando, em noites frias e silenciosas, ela chorava de saudade. Não negava amor jamais, por qualquer motivo ou pela falta de um, contudo ninguém lhe doava amor sincero quando, triste e desabrigada, ela pedia um abraço. Não perdia a confiança em alguém por qualquer descuido, confiava cegamente e sem medo, contudo não ouvia uma simples confissão quando, à procura de carinho, sentia-se vazia, braços dados com a solidão. Não desejava mal a quem não sabia valorizá-la, conhecia o livre arbítrio de todos e zelava por ele, contudo não era perdoada quando escorria veneno,da boca de quem, aos poucos, apodrece por dentro. Não queria se perder daquele sentimento, daquela vida planejada, contudo procurava em alguns o que, na verdade, sentia por outros. Não podia deixar de lembrar do passado com carinho de quem muito amou, sonhou e se entregou, contudo suas lembranças insistiam em feri-la quando, angustiada e sozinha, sentava ao computador para escrever algo que lhe fizessem bem, na ânsia vã de não mais sentir-se fragmentada, incompleta, abandonada.

23 julho 2010

Era um adeus, e nada mais

Demorou, mas ela entendeu que
aquele aceno de chapéu e o sorriso misterioso,
não eram sinais de chegada.
Entendeu que o cabelo ao vento
e o pedaço de peito nú, no desleixo da camisa,
não eram um convite.
Eram uma despedida declarada,
 um tiro certeiro,era um adeus,
 e nada mais.

12 julho 2010

Cuidado!

Quando precisa dizer adeus,
o faz uma única vez, jamais volta atrás.
Afinal, o roteiro pode até ser o mesmo,
mas ela só aceita novos personagens.

03 julho 2010

Ela escrevia porque se sentia flutuar.
Escrevia porque desejava o mundo e,
ao escrever, tinha certeza que iria alcançar.
Escrevia porque não lhe bastava apenas pensar,
ela queria concretizar, tinha fome de grafar.
Ela escrevia porque era a única forma de continuar,
quando descobriu que não sabia amar.
Andando pelas ruas, ladeira abaixo avisto ao longe você. Como se a cidade te oferecesse a mim, como se a lua marcasse um encontro a tempos desejado. Você que sentado ao pé da árvore,é como se fizesse pose. Você que, desatento, não vê que tira minha atenção. Você que fala versos, palavras soltas, frases manjadas que insistem em soar como melodias doces, sinfonias de amor aos meus ouvidos. Você que mesmo longe, cada dia mais perto de mim está. Você que quando pensa em ir, já estou de malas prontas para acompanhar. Você que nem sabe que eu existo, mas há tempos protagoniza meus sonhos. Você que vive por aí, e eu a querer viver com você. Você que nunca me viu, e eu que sempre te amei.
Despediu-se sentindo, na alma, a crueldade do deixar,
ainda que desejasse provar a alegria da chegada.
Foi sem olhar pra trás, sem arrependimentos,
coração refeito, cabeça erguida, foi andando.
Devolveu-lhe tudo com indiferença,
a companhia que já não desejava,
o abraço que há muito não aquecia,
manteve ao menos a fria gratidão.
Nas paredes fotografias de lembrança,
na mesa, um resquício de consideração:

"Aqui estão tuas chaves.
Já não preciso delas,
tampouco do teu amor."

27 junho 2010

São poucos os pavios que me acendem,
mas as palavras vivem em um constante incediar-me.
Em meus versos sou frágil, inflamável, chama viva à sua espreita.
Acabo sempre assim, 
inteira de interrogações,
barrada na frieza das tuas reticências.

Cobra Criada

Me descrevo em palavras, para que você me aceite em versos.
Cativante, eu chego como quem não quer nada sabendo que vai ganhar tudo, troco olhares e,às vezes, piscadelas como quem entende a linguagem a corporal, atraio como se fosse a presa para, logo,mostrar-me caçador. Envolvo, conquisto, dou trela, dou corda, mas quem segura é você, e o enforcamento vem na continuação. Não tiro os pés do chão, porque, de quedas, finquei raízes no solo, mas os faço voarem, flutuo aos poucos, iludo para manter o clima. Se quiser me conhecer, estou aqui, a minha simpatia por certo te conquistará. Se quiser confiar em mim, estou aqui, meu carinho por certo te convencerá. Se quiser andar comigo, estou aqui, de mãos dadas por certo te guiarei e protegerei. Mas não me faça deusa se não pode vê-la em mim. Não me ache perfeita se tolera meus defeitos. Não me admita como sua se não tiver propriedade para tal. Não tenha medo de me perder se não houver a certeza de ter me encontrado. Não me ache doce se não provou além da simpatia, se não mordeu a pimenta. Não me deseje intensamente se não pode saciar-me a sede, a fome, a vontade, a existência.Acima de tudo, não me ame se não deseja sofrer a dor da não-correspondência, da indiferença, do esquecimento. 
Meus amores são imperfeitos e passageiros, bem como vocês.

20 junho 2010

Hoje ela sabe, jamais vai morrer de amor novamente.
Porque, de amor, só se morre uma vez, eternamente.

10 junho 2010

Eram dias doces, de amar sem medidas, de não ter medidas para amar.
De carinho incontrolável, constante, de juras eternas à todo instante.
Eram dias quentes, do calor do abraço, de companheirismo, fidelidade,
de promessas clássicas, risos espontâneos, vestígios de uma aparente felicidade.
Enxugo nos olhos a saudade de um amor que já não vive.

Me desculpem

Que me desculpem os saudosos, não os procuro por falta de tempo, é verdade, por falta de estímulo, não nego, por falta até mesmo de vontade, confesso. Que me desculpem os que esperam respostas, não respondo por falta de palavras, por falta de razões, por achar desnecessário. Que me desculpem os preocupados, não sou a mesma por falta de convicção, por falta de persistência, por falta de amor-próprio.
Que me desculpem todas as boas almas que em mim depositam carinho, devotam respeito, estabelecem laços, entregam amor, me desculpem! É com pesar que admito estar ausente, estar distante, ou melhor, não estar em nada, em nenhum lugar aonde possam me achar. E pior do que isso, admito ser tudo uma grande falta de interesse que talvez não possa ser explicado, mas ao menos uma breve explicação ainda posso oferecer-lhes.
É que este coração, desta vez quebrado e não consertado, chora dores de amores frágeis, quebradiços, ilusórios.Cortam, como navalha, lembranças de sentimentos que talvez nunca existiram, de uma entrega em vão, de consideração jogada ao vento. E desse amor que dói, que foge, que vai embora, farta estou. Tão logo me recupere, ou mais corajosa fique, voltarei a ser quem era, quem quis ser, quem mereciam que eu fosse. Mas por enquanto, grito nomes arrancados da agenda, rasgos fotos que nunca tirei, lembro de juras que nem foram ditas, escrevo páginas rabiscadas sobre um coração que não sabe mais bater.

Insônia (moral)

Hoje passei em frente ao cemitério e na capela uma pessoa estava sendo velada. Ao redor do caixão aquela velha aglomeração, pessoas chorando, rezando, alguns poucos curiosos à procura de informação, outros mantendo pose de compaixão pela vítima que, na realidade, nada mais pode sofrer. Uma pessoa chamou-me atenção, dentre tantos sofrimentos ali havia um mais forte, mais real, talvez por ser a mãe, mas não uma mãe qualquer, a mãe daquele corpinho ali,uma mãe agora órfã de filho, órfã de um amor que só ela sabe existir nesse famoso laço de maternidade, órfã de esperança por um mundo justo. A pretexto de estar atrasada pra qualquer compromisso inventado, saí daquele lugar que tanto me entristece, saí daquele cheiro, daquela visão, daquele frio, daquela desilusão que a morte deixa em toda parte. Mas foi justamente ao sair que vi com novos olhos a situação em que estava, e sempre estive.
Logo na esquina seguinte à capela, crianças brincavam de futebol em um pequeno campinho de barro judiado, corriam por todos os lados, gritavam, riam, como se a vida fosse aquele momento, único e precioso. Ali perto, jovens conversavam alto, entre sorrisos e gingados típicos, como se a vida se resumisse ali, no breve espaço de estarem juntos 'curtindo'. Todos a minha volta estavam tão envolvidos com si mesmos que me irritavam. Como podiam continuar a vida normalmente se, próximo deles, havia uma criança morta e uma mãe com um sofrimento infinito? Quão frio o mundo consegue ser para continuar nessa normalidade, no 'tanto faz tanto fez' enquanto, ali do lado, alguém perdia a vida tão cedo?
Assim, de súbito, fui tomada por esse sentimento de injustiça, de raiva do mundo,raiva de todos, por estarem vivendo suas vidas enquanto alguém já não podia fazê-lo. Será que ninguém se importa com a dor alheia?
Contudo, prezados leitores, não nos deixemos enganar, a verdade dói e eu logo começaria a sentir. Não padeço da hipocrisia moral que move o mundo, contarei-lhe, pois, o que enfim tive coragem que contar-me também.Com qual propriedade eu poderia cobrar qualquer reação diferente do mundo se as minhas próprias reações vão ao encontro dessa insensibilidade? Vejam bem, me dei conta de que a cada momento triste e de dor alheia como esse eu, sim EU, estava indiferente, exatamente do modo como aquilo me irritava agora.
Eu estava brincando com meus brinquedos quando Ayrton Senna morreu e, pela primeira vez, vi um homem chorar, se desesperar, e gravar com lágrimas uma canção que o emocionaria por muitos anos, meu pai. Eu estava na aula de matemática quando morreu um dos melhores comediantes brasileiros, alguém que ninguém imagina que possa nos deixar de fazer sorrir, quando um ataque cardíaco tirou o gracejo dos lábios de Bussunda. Eu estava conversando com amigos quando a 'eterna' Dercy Gonçalves deixou o palavreado solto que era sua marca registrada, e foi alegrar o céu. Eu recém abria os presentes, um dia depois do meu aniversário, quando uma verdadeira dama faleceu, minha bisavó que, em seus ultimos minutos, fez questão de demonstrar orgulho de mim,e me ensinar como uma mulher de fibra morre com dignidade, em paz. Eu estava tranquila na aula enquanto mais de 200 mil pessoas morriam em um terremoto no Haiti, muitos brasileiros bondosos, saudosos de suas famílias, e muitas pessoas com um fio sequer de esperança perderam tudo, inclusive a vida. Eu estava por aí pelas ruas, pela vida quando, ao meu redor, o inimigo à espreita ceifava vidas silenciosamente, eu estava à toa quando a 'gripe suína' veio estabelecer as regras do jogo. Eu voltava da escola quando uma notícia inacreditável surgiu, para tirar-me o sono por dias e, como uma troca, me deixar a tristeza por noites, morria o suposto imortal Michael Jackson, aquele ídolo, rei, ícone, tipo de pessoa que nunca morreria. Eu estava indo ao parque de diversões quando um telefonema curto, mas certeiro, pôs meu mundo à baixo, e pôs meu coração em frangalhos para sempre, meu avô havia falecido, naquele momento, e eu, não crente ou inocente, fui brincar no parque, como quem não sabia, mas conheceria mais tarde a dor de não ter, a dor do nunca mais.
Posto esses exemplos, digam-me leitores, como poderia eu cobrar reações diferentes do mundo? Eu mesma estava indiferente até mesmo nas situações que me envolviam. Até quando a morte tocou meu braço, bateu à minha porta, levou meu avô e deixou uma dor incontrolável, inexplicável, eu estava lá, indiferente. É.. Novamente, a verdade dói, mas deve ser dita. E, é com essa clareza, que desfaço minhas utopias, o mundo gira e a vida continua mesmo, naturamente. Assim como eu.

15 abril 2010

Constante recomeçar..

Hoje resolvi, pois, fazer o que muitas pessoas fazem ou dizem que é certo: fazer do blog um diário. Diferente, claro, porém um diário, assim será. Começemos, então.

Querido Diário,
Não, não soa falso esse 'querido' logo em nosso primeiro contato, uma vez que você não sabe quanto já o adoro desde sempre. Mas deixemos a pieguisse pra depois. Vamos aos fatos. Hoje foi um dia de aprendizado e eu não me refiro à conteúdos escolares. Aprendi inúmeras coisas, relembrei outras, percebi algumas. Hoje, querido, eu vi que, involuntariamente talvez, faço mal pra mim mesma. Cartas, por exemplo, joguei fora cartas de quem deveria ter guardado, mas o medo da decepção e a lembrança da dor posterior me fizeram covarde, e lancei tudo ao vento, como palavras ditas da boca pra fora. Contudo, justo as cartas que eu deveria ter rasgado, lançado, queimado, estão aqui, literalmente aqui, nesta gaveta ao meu lado, e não consigo me desfazer delas, tampouco me refazer do que elas fazem comigo. Dá pra entender?
Aliás, lembrei disso porque hoje eu vi aquela pessoa que há muito deixei de ver, de ouvir, de tocar, de sentir, será que de amar também? Espero, e gostaria de não estar me enganando.
Também hoje criei uma frase, em virtude de meus momentos de hoje,claro, mas com um quê de novidade, quem sabe alguém já tenha criado esta antes, caso isso não tenha acontecido, está aqui em primeira mão pra você: "Pesadelos se tornam reais quando os sonhos são esquecidos". ( O pior foi que escrevi isso embaixo do desenho que fiz: uma Bruxa-de nome Brígida- em meio à um céu medonho-escuro).
Hoje aprendi que eu desejo muito mais quando, além de proibido, é improvável. Mas convenhamos, imagine a delícia de fazer algo que não é permitido e tem mínimissimas chances de acontecer! É de dar água na boca esse cheirinho de vitória suja. E eu adoro.
Não posso esquecer que eu aprendi também nesse dia a 'fazer dar certo', correr atrás enquanto dá tempo e pedir desculpas à alguém com o coração apertado, de quem precisa muito daquele perdão, daquele abraço, daquele sorriso, daquele cheiro, daquele beijo, daquela alma. Ah diário, se você soubesse dos meus pensamentos... Das minhas aventuras... Aos poucos vou lhe contando.
Ligaram me para dizer que 'apesar de ser difícil falar comigo, estava morrendo de saudades e queria me ver antes de viajar'. E, pasme, eu também queria ver e estava com saudades. Deve ser a carência de Abril, que se não existia ainda, pode existir apartir de agora.
Ah, hoje também vi 3 palavras simples em um sms curto, porém importantíssimo, me causar uma sensação de euforia interna, um domínio de esperança, um banho de alívio. Recebi uma mensagem simples assim: "saudade de vc", e senti os olhos marejados de quem ganha, pela primeira vez, a paz divina.
Acho que foi esse, basicamente, meu dia, diário. Ah, e creio que a sensação de solidão aprendeu um truque novo hoje: ser teimosa e persistente.
Mas eu me viro, sem ficar tonta.
Frases do dia:
'O controle é possível'
'A Consciência é o primeiro passo.'
'Os opostos se atraem.' [definitivamente]
Obrigada pelo ombro amigo, ou melhor, pelas páginas amigas,
Até logo mais,

Sua confidente de sempre,
Fernanda.

11 abril 2010

Aqueles Olhos...

Sentiu-se vergonhosamente despida por aquele olhar. Aqueles Olhos... Ah, aqueles Olhos!
Eram olhos expressivos, cheios de história pra contar, olhos que convidavam à uma conversa longa e, certamente, muda. Negros, como que para esconder as tantas coisas que jamais contariam, mas eram de um escuro diferente. Um escuro não de quando 'apagam as luzes', era um escuro de onde nunca houve claridade. Apesar disso brilhavam, e como brilhavam! Tentando mostrar que tinham, ao menos, a famosa luz no fim do túnel.
Aqueles olhos! Misteriosos como só eles sabiam ser, sujeitos à mil e uma interpretações, que esclareciam tudo quando nada demonstravam, lançavam olhares precisos, convictos de seus significados mais primitivos, completos. Eram olhos assustadores. Secos como areia de um deserto moral, indícios certos de um coração inúmeras vezes quebrado e não bem consertado. Olhos sérios, exalavam poder a cada piscada. Frios como desacreditados do mundo e, no entanto, eram jovens, uma ironia. Era jovens pela biologia infalível, contudo vividos, sábios, cheios de experiências, boas e nem tão boas.
Eram olhos desconfiados, não faziam perguntas, ao passo que também nada respondiam. Eram enigmáticos, tinham sempre algo a dizer, ou a esconder. Tinha medo de fitá-los, parecia ser devorada ávidamente a cada olho-no-olho, esses olhos tão conhecidos insistiam em chamá-la de fraca, fragmentar-lhe e, lançar ao vento seus segredos mais íntimos. Foi então que a menina passou a ter medo dos olhos que a esperavam em todos os espelhos.

01 abril 2010

Fora de Moda

Hoje fui comprar perfume como sempre vou: mentalizando trazer o usual e, ao mesmo tempo, aberta às inovações. Olhei, olhei, ou melhor, cheirei, cheirei, e fiquei na dúvida entre meus 3 favoritos, aliás, meus 3 mais rotineiros.Contudo, por algum motivo, resolvi perguntar à mulher sobre um perfume que eu usei há 6 anos, cujo nome era 'amizade' em francês. Embora eu estivesse bem resolvida quanto a não levá-lo, eu gostaria de rever o frasco, 'ressentir' o cheirinho de amizade que ele realmente me lembrava. Mas fui surpreendida duas vezes. Pela resposta da vendedora e pelo que essa resposta me fez sentir. Fui informada que o meu perfume com cheiro e nome de amizade saiu de linha e, estranhamente, fui tomada por uma sensação súbita de tristeza. Não pelo fato de o meu perfume da adolescência não existir mais, mas porque, de alguma forma, havia um significado bem maior por trás disso, tão maior quanto difícil.
Talvez você, curioso leitor, não entenda o que quero dizer, mas não me custa, pelo contrário, me alivia tentar proporcionar-lhe uma nova visão dos fatos. Ao ouvir que o perfume saiu de linha, na verdade ouvi o que a mulher não dizia, mas estava explícito como um elefante que se esconde atrás da moita: A amizade saiu de linha. Sim, é bem possível que isso seja uma interpretação muita criativa, sugerida pelo próprio nome do perfume, fugitiva nata da realidade, mas é o que eu ouvi,e o que tenho visto todos os dias. A amizade saiu de linha, caiu das paradas, está fora de moda. Ninguém mais se importa com qualquer tipo de relacionamento que não seja amoroso, ninguém mais percebe o que a boca não diz mas o olhar de um amigo lê claramente numa conversa muda, ninguém mais se importa se quem está ao lado precisa de ombro, precisa de colo, precisa de amor. E amor, ora! Convenhamos, simpático, as pessoas mal se lembram que ele existe, posto que vos falo não do amor carnal, mas do amor espiritual, a sensação de paz, tranquilidade, de estar completo, sentir-se abrigado e pronto para enfrentar qualquer tempestade, qualquer guerra, qualquer dor. E isso sabemos bem, eu e você, isso é exclusividade de amigos, das amizades. Aquela sensação de ser livre para errar e continuar sendo amado nos seus erros, mesmo os propositais, nas suas imperfeições, nos seus defeitos. Aquela relação em que sempre se ganha mais em oferecer, em que o bem do outro é nosso maior tesouro, em que a sinceridade e cumplicidade concretizam-se no singelo gesto de abraçar. Mas já não tem importância. Ninguém quer mais isso, não é mais top, não faz sucesso. Sucesso agora é ser pop, estampar a falsa simpatia no rosto, dar oizinho pra todo mundo e, dessa futilidade, gabar-se de ter muitos amigos. Ninguém mais diz as santas verdades que apenas verdadeiros amigos têm a segurança de dizer, aliás, mal têm tempo de dizer qualquer coisa que seja, as amizades são construídas em bases imaginárias, virtuais, são os dito amigos de orkut e msn. As pessoas querem relações passageiras, sentimentos frios, amores de papel. E a amizade vai embora assim, desse jeito, não fugindo do mundo, mas sendo expulsa dele e por ele. E vendo o que eu tenho de melhor se tornar esquecido e inútil, como as memórias que restaram do uso daquele perfume, penso no futuro. Não me importa se o mundo acabar em 2012, lembrarei, e isso basta, que tive amigos, amei-os mais do que a mim mesma e, acredite, estive na moda. Ao menos nas passarelas do coração.

28 março 2010

Flerte Fatal

é o que desperta, e
não agrada ou agrega
ao que seguramente
chamo de um caso
sem evidências.
te julgo criminoso,
não o digo no jornal:
és apenas suspeito
para olhares alheios
de desinteresse.

um dia hei de ler seu obituário.
talvez não reconheça seu nome,
como hoje já é com seu corpo.

Sonho de Inverno

Quanto mais fechados estivessem os olhos dela, mais ele parecia real. Era diretamente proporcional e não era daqueles que dormiam do lado esquerdo da cama. Ele parecia daqueles que optam por esperar por uma vida após a morte, enquanto ela vivia todos os dias a morte de não tê-lo. Lembrava do despertar de tamanho desejo, aquela noite fria, convidativa, em que ela sentiu na pele a intensidade do brilho dos olhos dele, aqueles doces olhos de noite serena eram como garras, garras de paixão. Gravou o gosto da voz dele, sequestrou o ar que ele pouco respirava. Ansiava a chegada da lua para vê-lo, no entanto lhe causava dor cada segundo que precedia o nascer do sol. Ele ia embora, sabia que durante o dia não o veria, por mais fechados que estivessem os olhos. E esperou durante todo o inverno que aquele sonho jamais se tornasse um pesadelo.

20 março 2010

Prefácio de nós dois

Ela liga, ele vai. Ele liga, ela vibra. Desejaram-se desde o início, entrelaçados,alma e pensamentos,até o fim.
Ela, que duvidou da força com que ele arrancava suspiros das meninas, vestiu sua armadura para cumprir o que estabeleceu para si, não se machucaria mais de amor. Tola. Como uma agulha furando o plástico, ele penetrou na 'segurança' dela e, devastadoramente, fê-la o que a pobre mais temia: mais uma fã.
Ele, que duvidou do poder de convencimento, ou melhor, do poder manipulador do sorriso dela, surpreendeu-se ao sentir a ausência dolorosa que ela causava. Tinha fome de vê-la, ouvi-la, senti-la e, desta fome, preferia morrer à saciar-se, conhecia bem os males de se render aos domínios de mulheres poderosas com ela, desta vez não cairia nessa armadilha, estava mais seguro de si.
Começaram pela tímida indiferença, por onde tudo começa mesmo.Logo veio a parceiria, o companheirismo, olhares e sorrisos encabuladamente maliciosos, trocados no íntimo de suas consciências. Não bastasse, ainda tinha o 'fingir que não se importa', e a arte fria de chamar de amigo o que queriam chamar de amor.
Entre o coleguismo e o amigos para sempre, não ousaram se defender da inimiga à espreita: a confiança. Quando confiaram seus segredos, devaneios, suas vidas, um ao outro, perderam-se. Abriram por completo a porta do amor, trancafiando as portas da paixão. Não sabiam, mas a vida iria lhes cobrar por isso.
Ela sente falta do abraço dele, do cheiro de vida que ele traz, de perder a hora admirando-o em silêncio, de fazer do corpo dele a própria moradia. Ela queria ser mais carinhosa, mais corajosa e ir a fundo com ele, desfazer seus limites e desvendar seus mistérios, mas sabe que é tarde demais.
Ele, por sua vez, tem ciúmes dela, muitas vezes controlado, outras tantas escancarado, muito além de um ciúmes amistoso, ele queria tê-la por inteiro, corpo e alma com exclusividade, sem precisar temer aquilo que lhe tira a paz: perdê-la. Para outros, para outras, para o mundo. Ele queria dizer o que sente, confessar o seu desejá-la, sugerir uma tentativa, mas sabe que é tarde demais.
Lembram-se juntos de uma vida que nunca viveram, por abdicarem, ou por lhes ter sido tirada pela confiança, pelos descaminhos, pelo destino. Vivem na amizade um eterno principiar de romance,até que ele, ao seu modo aventureiro, ou ela, da sua maneira desafiadora, usem a ousadia para abrir a porta que um dia, por medo, trancaram. Descobrem a cada dia o quão difícil é serem amigos quando seus olhos gritam um desejar de amantes. Eles ainda não sabem, mas vão se pertencer por tantas vidas quanto tiverem.

01 março 2010

Se quiser saber de mim

E se quiser saber de mim, vou dizer que estou bem.
Melhor que isso, vou mandar dizer que ja arrumei alguém.
Alguém no seu lugar, que vem me dar a mão exatamente quando você sai.
Alguém que chega quando você demora para aparecer.
Que passa o tempo todo comigo, faz tudo o que você adorava fazer.
Alguém que, ao meu lado, espera o inverno passar,
e só vai embora ao primeiro raio de sol da primavera que anuncia a sua volta.
E se quiser saber de mim, vou dizer que estou bem.
Vou dizer que estou com alguém, esse alguém que chama saudade.

27 fevereiro 2010

Refém de um destino amargo, um sapato fino sem salto

É culpa sua, fracionada, inacabada.
E ela se escora, decepcionada.
São trechos, desfechos.
São vazios obscuros,
Profundos, irremediáveis.
São pobres promessas,
Doses letais em conversas,
É minha culpa.
No ímpeto do abandono,
Se convence de que está pronto.
Até seu coração pulsar numa bandeja,
A vida ruir, a sensação dissolver,
O tempo espaçar.
A voz que se cala na distância,
O que volta a ser a nostalgia da lembrança.

14 fevereiro 2010

Era um lindo casaco de algodão finlandês e eu não podia perdê-lo. Ver tamanha preciosidade naquela vitrine produzia em mim um brilho tão intenso, que eu quase sentia queimar como um lança-chamas biológico. Não dava apenas para olhar, eu só me basto com mais.
Entrei na loja leve e maravilhada, algo que foi como a sensação de adentrar os portais do paraíso, imagino eu. Direcionei-me rapidamente ao balcão e pedi à vendedora, com um ar de superioridade que me causou certo embaraço, aquilo que eu tanto desejava:
- Boa tarde, eu quero um casaco de algodão finlandês, aquele da vitrine, tamanho M.
Achei que fui até simpática, mas a moça teve a petulância de responder:
- Desculpe Senhora, só temos aquele e está reservado para um rapaz que esteve aqui logo cedo.
COMO ASSIM RESERVADO? Será que ela não ouvia a urgência com que meu corpo, e ego, pedia aquele casaco? Quis dizer aquelas "boas verdades" à ela ,(aquelas que todo mundo quer dizer quando está bravo, mas que, no fundo, não são boas, muito menos verdades) mas não era sua culpa, inclusive ajudou-me, a coitada. Disse que o bendito rapaz viria buscar e encomenda na manhã seguinte, e talvez eu deveria aparecer afim de negociar. Esperei o dia seguinte e fui, esperançosa.
Era um lindo homem rico e charmoso e eu não podia perdê-lo. Se minhas amigas vissem a cara de "amor à primeira vista" com que eu o olhava, certamente ririam. Era inevitável, o rapaz era muito bonito, simpático, aparentemente rico, e tinha um bom gosto indiscutível, afinal era o MEU casaco que ele estava levando embora. Desejei ambos, o homem e o casaco, com a mesma intensidade.
Tentei argumentar, impedi-lo, mas estava embriagada pela simples existência dele, tanto que só pude assisti-lo ir como um manequin qualquer, uma estátua humana. Quando recuperei a normalidade, perguntei às vendedoras nome e telefone do dito cujo, usando a desculpa de procurá-lo para implorar pelo meu desejo. Ambos os desejos. Fui até a casa dele, passamos um tarde, conversamos, e foi assim durante todas as tardes naquele mês. Até que, enfim, começamos uma relação.
Eu me sentia suja, encoberta por uma camada de maldade, crueldade egoísta em não dizer nada sobre a fome que eu tinha do casado dele, que no fundo era meu. O tempo passou e, quando resolvemos casar, eu confiei à ele esse segredo, o desejo que eu tinha do casaco é que havia me feito estar na loja naquele dia. Nada aconteceu, de modo que ele entendeu que talvez nossa maior conspiração tenha sido o casaco, e sugeriu dividi-lo. Adorei. Hoje fazemos 20 anos de casados, de cumplicidade, de sinceridade e, acima de tudo, vinte anos de divisão de um belo casaco e um amor verdadeiro.
Eram um lindo casado de algodão finlandês e um lindo homem rico e charmoso, e eu não podia perdê-los.

03 fevereiro 2010

Reality Show

Pela primeira vez, nesta edição, resolvi assistir o BBB10 ontem, era dia de eliminação. A casa está tensa, muitas brigas, falsos moralismos, estratégias e tudo aquilo que nós ja decoramos que rola na casa toda edição. O engraçado foi que pela primeira vez, assisti a esse showzinho barato da vida real com olhos completamente críticos. É nojento ver como grande parte dos brasileiros supervaloriza programas como esse, os quais funcionam quase como observatório de macacos. Ao mesmo tempo que têm total liberdade para TUDO, qualquer coisa que fizerem será julgada, pelo programa e pelo público, principalmente. Não é possível que ninguém veja. Aquilo que esta ali é você! Somos nós!! Todo mundo tem um pouco de vilão e mocinho, todo mundo tem suas verdades salpicadas de mentiras, todo mundo tem seus julgamentos, menos sobre si, demasiado sobre os outros.Todo mundo tem momentos de semi-surtar, exagerar, se desculpar, se mascarar. Quando chamam programas como BBB10, Casa dos Artistas, A fazenda e afins de reality shows não é porque é um nome bonito, chique. É porque de fato o é, é o show da realidade, todos na "vida real" são assim, mas é sempre mais cômodo assistir de camarote a vida alheia do que refletir sobre suas próprias atitudes. Minha indignação maior é com os participantes, poxa, um milhão e meio de reais não é pouca coisa, mas precisa haver dinheiro para se conhecer melhor? Para se auto-avaliar e tentar civilizar-se? Vão louca e cegamente atrás de um dinheiro que ganharão por, apenas, mostrarem quem são de verdade. Incrível como uns têm dinheiro fácil, não?! O negócio é que..A maior lição que esse tipo de programa pode dar não tem a ver com o dinheiro. É impagável, e a maioria dos telespectadores, mesmo assistindo todos os dias durante 10 edições, dificilmente se dá conta: A liberdade é a nossa maior prisão.

29 janeiro 2010

Última vez

Mais uma vez e pela última, finjo ter saudades e amar alguém com um amor que na verdade eu ainda não sinto. Não é culpa minha, não acho bonito ou gosto de mentir, mas é assim que tem que ser. Você foi ensinado a mentir assim, principalmente nessa situação, o mundo te criou para não machucar as pessoas mesmo que isso implique machucar a si mesmo. Aliás, você não pode machucar as pessoas dizendo "ah, que bom" quando elas dizem que te amam ou sentem saudades, e você não sente o mesmo. Mas, quando elas perceberem tal fingimento irão lembrar de, acima de tudo, não te machucar? Minha experiência própria de 18 anos sempre iguais diz que não. Se vale um conselho: Preocupe-se mais com você, é isso que importa. Se eu disser que te amo, eu te amo! Se eu não disser, não espere, não me julgue. Crie asas, voe, mas nunca, nunca, perca a capacidade de amar, não importa quanta dor isso possa te causar.

10 janeiro 2010

"Ela não sabe que é imortal, por isso é feliz. Vive com intensidade cada dia, como se fosse o último."