20 dezembro 2010

Introdução

Um dia ela vai abrir o coração, se deixar transparecer aos seus olhos confiáveis, desnudar-se em alma para que você a compreenda, aceite-a, e então, quem sabe, ame-a.
Ela vai dizer que entre a porta e a janela da própria alma vê um espaço inexistente, vê um buraco sem tamanho, uma inocência que nunca teve, vê ela e vê você em sintonia espiritual e carnal, enfeitando noites frias e dias quentes de primavera. Vai dizer que quando emocionalmente fraca, é hipersensível e facilmente sugestionável. Não é capaz de oferecer consolo a alguém que sofre, porque ela mal consegue suportar sua própria angústia. Vai dizer que sente mais do que pensa, pensa mais do que age, tem bem menos do que quer e muito mais do que espera. Também dirá que um dia foi doce, mas descobriu que o valor e o desejo estão atrelados ao picante, ao misterioso sabor da inconseqüência, da liberdade de não prender e não sentir-se preso.
Vai dizer que passou por muitas noites ‘fora do comum’ que acabaram em um simples ‘dia seguinte’, e que, destes, guardou apenas três gostos na boca: de vodca, de lágrimas e de cigarro barato. Vai dizer que quando é fria, é distante. Quando quente, é perigosa. Quando magoada, é calculista. Quando dorme, é donzela. Quando acorda, é malandra. Quando se limita, é infinita. Quando livre, é insana. Quando presa, é tua.Vai dizer que de tantos que a habitam, acabou expulsa de si mesma. Que há pouco tempo descobriu que a única forma de sair do inferno é ser o próprio diabo, e que isso não é necessariamente um sacrifício. Vai dizer que deita na cama todas as noites, abre um livro e sacia, aos poucos, a fome de palavras que outras bocas disseram por ela. E que neste mesmo livro, sempre encontra aquele velho abrigo, o novo amigo que surge ao longo das páginas, como na vida.
Vai dizer que lê pra respirar, e escreve pra viver. Que não vai te ligar para saber como está a cada meia hora, menos ainda dizer que te ama todos os dias, e, embora distante do que pareça, ela bem sabe que quando o orgulho entra pela porta, o amor sai pela janela. Vai dizer que ela é um mero conjunto de fragmentos existentes, perdidos no espaço de não ser quem deveria, para ser o personagem que deseja. E, ao final desse singelo prefácio de sua alma, vai dizer que se sente grata por ter em quem confiar, ainda que não o faça, por direito de precaução ou coração outrora partido, e, do livro desta vida, caso você não possa ou não queria ler a história inteira, ela lhe oferece a sinopse: A cada alvorecer ela nasce e morre um bocadinho do que já foi um dia.



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