07 abril 2013

A Rosa do Deserto

As pessoas mudam. Especialmente eu, estou sempre mudando. Não raro são os momentos em que olho no espelho e me vejo outra, por dentro a mesma, por fora incógnita. Desta vez não. O que o espelho refletiu foi diferente, por fora a mesma, por dentro vazio.
Não aquele vazio de quem não sabe quem é, não sabe o que quer, não sabe nada a respeito de si. Não, esse vazio acho que nunca abriguei. É um vazio novo. O vazio que eu passei a vida desafiando a me pegar, a encostar em mim.. Pois é, me buscou, me encontrou, entrou. O nada absoluto, o não existir do sentimento mais puro, aquele que preenche a essência de todos os seres pesou em mim. A ausência de amor, refletida no espelho, rasgou em pedaços a lógica e a segurança que eu tinha em fugir dessa loucura chamada amor. Nunca foi tão gritante a sensação de ser um deserto, uma solidão constante que parece só aumentar. Pela primeira vez, doeu ser tão só. Contudo, além da solidão, outra coisa despiu-me frente ao espelho: a Dúvida.
Ao longo de todos esses anos sendo fugitiva do amor muitas pessoas se aproximaram, chegaram, tocaram e, em todos os casos, se feriram. Como quem vê uma flor, admira, se apaixona, e ao tocá-la se machuca. É exatamente isso, tenho sido, há muito tempo, uma rosa no deserto. O deserto que também sou eu. Então, em todo esse tempo, todas as feridas que causei, todos os sentimentos que estraguei, os amores que não aceitei... Será que joguei fora a chance de viver o tal "conto de fadas"? Será que não vi chegar e se aproximar o amor sorrateiro, à minha espera, querendo me ensinar a aceitá-lo? E se não houver outra chance?
Quando olhei no espelho e a solidão me olhou de volta, senti o corpo estremecer e chorei como há muito não fazia. Orgulho-me do estilo de vida que levo e como o tenho feito, mas vez ou outra, é estranho não ter alguém. Estranho não, é horrível não ter alguém. Alguém que seja só meu, e que só queira a mim. Alguém que sinta fome e sede de mim, que tenha aquela saudade sufocante em apenas 5 minutos da minha ausência. Alguém que me chame de amor com verdade nos lábios, alguém que pense em mim uma vez a cada minuto do dia. Alguém que sonhe comigo, que sonhe uma vida inteira, faça milhares de planos, e em todos, inconscientemente me inclua. Alguém que me olhe com admiração sem motivo na fila do pão, que faça carinho durante um filme no cinema, que fique um domingo inteiro brincando, rindo e fazendo birra no sofá. Alguém que tenha orgulho estampado nos olhos em me apresentar como sua na roda de amigos. Alguém que, mesmo desperfumada e toda despetalada, continue a me achar a rosa mais linda.
A inexistência desse alguém rasgou-me, feriu a minha essência, como eu tantas vezes fiz com quem tentou ocupar esse lugar. De hoje em diante, recolherei os espinhos, serei rosa mansa, linda e doce, à espera do toque. Continuarei não procurando, mas andarei em direção ao amor, só pra ver se ele me encontra mais rápido. E quem quiser chegar, encontrará todas as ferramentas para construir um castelo em meu deserto, e atrevendo-se a tocar a rosa, será recompensado. A partir de agora meu coração está de portas abertas, se quiser entrar... Bom... Entre, só não repare a bagunça.