Sei que hoje deveria dizer o que sinto a respeito de estar completando 20 primaveras. Tudo bem, mas que seja dita a verdade: tenho quase certeza de estar completando 20 invernos. É sempre aquela sensação gélida, consistente, incômoda, cruelmente sarcástica de sentir frio sozinha, sem nenhuma proteção.
Todavia, excetuando os olhos tristemente marejados, isso não é uma reclamação. Talvez seja como um agradecimento, é, um agradecimento à vida, pelos ensinamentos, pela experiência adquirida. E esta foi muita, muita mesmo.
Ao longo desse tempo aprendi muitas coisas...
Aprendi que as pessoas podem ser doces ou azedas. As azedas são ruins, claro, mas pior são as doces que de tanto adoçar, um dia estragam. Aprendi que no caminho da vida existem muitas placas, atalhos, encruzilhadas, mas o lugar para onde vamos seguir só depende de nós, pode ser totalmente no rumo contrário, por estradas de barro, por entrada sem placa, por onde a gente quiser. Aprendi que nem tudo que brilha é estrela, e nem toda escuridão é o fim. Aprendi que querer é meio caminho andado para poder e que, na maioria das vezes, quando podemos não queremos mais. Aprendi que as pessoas [é, aprendi muito sobre as pessoas] podem ser uma surpresa eterna, seja ela boa ou má, e temos que lidar com isso, ou partir pra outro planeta não povoado por meros seres humanos. Aprendi que saudade não tem hora, data, ocasião ou endereço para apertar o coração com tanta ferocidade como quisesse arrancá-lo do peito, e só pára de doer quando se transforma em lágrimas à escorrer pelo rosto.
Ah, eu aprendi muitas coisas. Esses são só alguns exemplos. Mas aprendi, principalmente, que amor não se explica, acontece. Não se define, chega se impondo. Não tem volta, apenas desilusão. Não tem mistério, é apenas se entregar. Aprendi, finalmente, que nunca soube amar, e é por isso que amo tanto, errado, mas infinitamente muito.
31 julho 2011
19 julho 2011
Um Doce Colorê
Chegou em casa e correu para o quarto com a mão contra a boca, como se quisesse guardar o máximo possível a impressão daquele primeiro beijo, tão ensaiado e que apenas hoje tinha, de fato, acontecido. Deitou na cama e olhou para o teto, era como se visse um arco-íris. Teve a certeza de que nunca iria esquecer aquela tarde, aquela sensação de perigo, aquele desejo escondido, tudo. Olhava os móveis ao redor no quarto, e sorria, não via nada além daqueles lindos cabelos claros que finalmente fizeram mais do que apenas provocar. Queria mais daquele beijo, muito mais, e iria esperar por isso. De repente, um sorrisinho lhe saltou do cantinho da boca ao relembrar do gosto daqueles lábios. Eram tão deliciosamente como ela esperava e melhor, eram doces. Sim, doces como balinha, ou tinham um quê de chocolate da infância, não tinha certeza, mas eram doces. Não sabia como aquilo iria acabar, mas sabia que hoje o dia acabava assim... Com a imagem dos lindos cabelos claros na cabeça, a sensação do toque macio da pele branquinha nas mãos, o perfume marcado nas roupas, e a doçura daquele beijo eternizada nos lábios.12 julho 2011
Covarde, sentou na poltrona do quarto olhando vagamente aquele horizonte nublado, tipicamente oportuno nos dias em que nublamos por dentro. Pensou, desejou, ensaiou levartar-se e ir, mas o coração travado gelava, pedido para ela ficar. Não era masoquista e embora soubesse, certo como o sol de todo dia, que ir significava voltar aos frangalhos e sangrando, ela precisava estar lá, e no caso de voltar nesse estado de dor e fracasso, ao menos teria a certeza de estar viva por senti-lo.
Apagou o cigarro da coragem e foi. Foi sem saber se podia, foi a ignorar o peito implorante aos gritos, foi velando um coração que jamais teria novamente inteiro. O corpo tremia e ela tropeçava no ar. Sentia um frio horroroso em cada brisa furtiva que lhe balançava os cabelos, mas sabia que, na verdade, queimava em febre, febre de ansiedade, de angústia, da contrariedade de estar indo.
Apenas uma coisa ela desfrutava: o silêncio. Este sim não era um suplício, ela adorava silenciar, saboreava o mistério do silêncio que não cala, faz falar.
Voltou sem lágrimas, talvez já as tivessem chovido outrora, talvez os olhos lhe negassem qualquer piedade, ela sabia que ia ser assim quando teimou em ir. Ela caminhava passos firmes, na busca do caminho de volta, do quarto que deixara covardemente, mas sem nenhum apocalipse interno visível. Olhava a paisagem agora em cores gritantes, ouvia conversas falhadas entre transeuntes, admirava o canto dos pássaros. Abriu a porta, dirigiu-se ao quarto. Entrou, percebeu os passo mais apressados em direção ao canto do quarto, praticamente jogou-se na poltrona, de tal forma que nem uma ligeira passadela de olhos no espelho pode dar, posto que não viu o rosto desgranhado de frustração, tampouco os olhos gélidos, sem vida com que voltava agora desolada.
Sentada na poltrona também não chorou. Estava diferente, só não sabia como ou quanto. Algo mudava dentro dela, achava até que o coração já não batia. Ela era uma nova mulher, acrescida de dor, diminuída a idade, era insuportável imaginar viver sozinha com esta estranha com quem ela estava dividindo o corpo. Mas ela era só, e esta, descobrira hoje, era sua maior qualidade.
Apagou o cigarro da coragem e foi. Foi sem saber se podia, foi a ignorar o peito implorante aos gritos, foi velando um coração que jamais teria novamente inteiro. O corpo tremia e ela tropeçava no ar. Sentia um frio horroroso em cada brisa furtiva que lhe balançava os cabelos, mas sabia que, na verdade, queimava em febre, febre de ansiedade, de angústia, da contrariedade de estar indo.
Apenas uma coisa ela desfrutava: o silêncio. Este sim não era um suplício, ela adorava silenciar, saboreava o mistério do silêncio que não cala, faz falar.
Voltou sem lágrimas, talvez já as tivessem chovido outrora, talvez os olhos lhe negassem qualquer piedade, ela sabia que ia ser assim quando teimou em ir. Ela caminhava passos firmes, na busca do caminho de volta, do quarto que deixara covardemente, mas sem nenhum apocalipse interno visível. Olhava a paisagem agora em cores gritantes, ouvia conversas falhadas entre transeuntes, admirava o canto dos pássaros. Abriu a porta, dirigiu-se ao quarto. Entrou, percebeu os passo mais apressados em direção ao canto do quarto, praticamente jogou-se na poltrona, de tal forma que nem uma ligeira passadela de olhos no espelho pode dar, posto que não viu o rosto desgranhado de frustração, tampouco os olhos gélidos, sem vida com que voltava agora desolada.Sentada na poltrona também não chorou. Estava diferente, só não sabia como ou quanto. Algo mudava dentro dela, achava até que o coração já não batia. Ela era uma nova mulher, acrescida de dor, diminuída a idade, era insuportável imaginar viver sozinha com esta estranha com quem ela estava dividindo o corpo. Mas ela era só, e esta, descobrira hoje, era sua maior qualidade.
02 julho 2011
Assim caminha a humanidade
Cada dia que passa ouço menos o que as pessoas falam e observo mais o que fazem.
Juntam dinheiro perdendo a saúde, e gastam tudo tentando recuperá-la. Vivem como se nunca fossem morrem, e morrem sem ter vivido nada realmente válido. Adoram falar, discutir, brigar, mas ouvir nunca aprendem. Usam e abusam tanto de aparências e pré-conceitos,que não é surpresa não reconhecerem a figura que através do espelho os observa. Fazem tudo e qualquer coisa para subir e,tão logo avançam, já sentem o desejo infeliz de pisar em quem ainda está subindo.
As pessoas não têm mais tempo para nada que não seja buscar uma tal superioridade. Levianos e pobres de espíritos, pois se esquecem que, terminando o jogo, o peão e o rei voltam à mesma caixa.
Juntam dinheiro perdendo a saúde, e gastam tudo tentando recuperá-la. Vivem como se nunca fossem morrem, e morrem sem ter vivido nada realmente válido. Adoram falar, discutir, brigar, mas ouvir nunca aprendem. Usam e abusam tanto de aparências e pré-conceitos,que não é surpresa não reconhecerem a figura que através do espelho os observa. Fazem tudo e qualquer coisa para subir e,tão logo avançam, já sentem o desejo infeliz de pisar em quem ainda está subindo.
As pessoas não têm mais tempo para nada que não seja buscar uma tal superioridade. Levianos e pobres de espíritos, pois se esquecem que, terminando o jogo, o peão e o rei voltam à mesma caixa.
Um incansável querer mais.
Ele sempre quer algo mais. É tão intensa a pressão, tão insistentemente forte a vontade de me ter nos braços, que ele me afasta de si nos pequenos gestos despercebidos. Percebidos 24 horas por mim. É um constante abrigo que no fundo quer aprisionar, para que eu não fuja, e ninguém mais possa entrar por mim.
Acontece que ele sempre quer mais do que posso dar. É um querer que não tem fim, um infinito do qual eu não quero pertencer. É brigar com a razão, e se lambuzar nas perdições gostosas da carne, na ânsia de fazer, do que é apenas fogo, um grande amor. Mas não comigo. Não tenho nada para doar nesta investida fatal, posto que não me resta mais que um vazio no coração contrariado, depois de muito ter dado à antigas paixões fogosas que nunca viraram amor. Não posso alimentar um fogo que além de não queimar, mal me esquenta.
Ele vai pedir mais por muito tempo, e já me permito ser indiferente, uma vez que o tempo vai mostrando aos poucos que não é culpa minha nem de ninguém, ou melhor, que não há culpa, apenas desencontro. Enquanto isso, eu assisto a chama acesa queimar serena, desgastando-se aos poucos como vela de promessa. Mas que fique claro: Se pudesse, daria tudo e mais quanto mais ele pedisse. Só que deixo essa oportunidade ao futuro, quem sabe ele me surpreenda. Pois, no presente, não preciso tentar ser dois com ele, sabendo que nunca fui uma completa, de tantos frações espalhadas por ai.
O fato é que a insistência dele em nos fazer plural, balança meu singular, mas me mantém invariável.
Acontece que ele sempre quer mais do que posso dar. É um querer que não tem fim, um infinito do qual eu não quero pertencer. É brigar com a razão, e se lambuzar nas perdições gostosas da carne, na ânsia de fazer, do que é apenas fogo, um grande amor. Mas não comigo. Não tenho nada para doar nesta investida fatal, posto que não me resta mais que um vazio no coração contrariado, depois de muito ter dado à antigas paixões fogosas que nunca viraram amor. Não posso alimentar um fogo que além de não queimar, mal me esquenta.
Ele vai pedir mais por muito tempo, e já me permito ser indiferente, uma vez que o tempo vai mostrando aos poucos que não é culpa minha nem de ninguém, ou melhor, que não há culpa, apenas desencontro. Enquanto isso, eu assisto a chama acesa queimar serena, desgastando-se aos poucos como vela de promessa. Mas que fique claro: Se pudesse, daria tudo e mais quanto mais ele pedisse. Só que deixo essa oportunidade ao futuro, quem sabe ele me surpreenda. Pois, no presente, não preciso tentar ser dois com ele, sabendo que nunca fui uma completa, de tantos frações espalhadas por ai.
O fato é que a insistência dele em nos fazer plural, balança meu singular, mas me mantém invariável.
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