Apagou o cigarro da coragem e foi. Foi sem saber se podia, foi a ignorar o peito implorante aos gritos, foi velando um coração que jamais teria novamente inteiro. O corpo tremia e ela tropeçava no ar. Sentia um frio horroroso em cada brisa furtiva que lhe balançava os cabelos, mas sabia que, na verdade, queimava em febre, febre de ansiedade, de angústia, da contrariedade de estar indo.
Apenas uma coisa ela desfrutava: o silêncio. Este sim não era um suplício, ela adorava silenciar, saboreava o mistério do silêncio que não cala, faz falar.
Voltou sem lágrimas, talvez já as tivessem chovido outrora, talvez os olhos lhe negassem qualquer piedade, ela sabia que ia ser assim quando teimou em ir. Ela caminhava passos firmes, na busca do caminho de volta, do quarto que deixara covardemente, mas sem nenhum apocalipse interno visível. Olhava a paisagem agora em cores gritantes, ouvia conversas falhadas entre transeuntes, admirava o canto dos pássaros. Abriu a porta, dirigiu-se ao quarto. Entrou, percebeu os passo mais apressados em direção ao canto do quarto, praticamente jogou-se na poltrona, de tal forma que nem uma ligeira passadela de olhos no espelho pode dar, posto que não viu o rosto desgranhado de frustração, tampouco os olhos gélidos, sem vida com que voltava agora desolada.Sentada na poltrona também não chorou. Estava diferente, só não sabia como ou quanto. Algo mudava dentro dela, achava até que o coração já não batia. Ela era uma nova mulher, acrescida de dor, diminuída a idade, era insuportável imaginar viver sozinha com esta estranha com quem ela estava dividindo o corpo. Mas ela era só, e esta, descobrira hoje, era sua maior qualidade.
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