07 junho 2011

Morrer de Amor

O tempo que ela havia pedido acabara, e ele resolveu então que também acabaria seu sofrimento. Esperou por vários dias por qualquer sinal dela, de que sentia sua falta, queria que ele voltasse. E nada. Ele pôde concluir, ao longo dos dias, que o amor que um dia ela sentiu por ele se perdeu ao longo desse tempo. Tinha sofrido muito por ela nesses longos dias que estavam separados,sofreu por não tê-la e por não saber se ela deixara de ser apenas sua. Levantou daquela mesa ao fundo do bar, onde havia feito morada no último mês, e seguiu a passos duros pela ruas que antigamente levavam-o ao encontro de sua amada. Hoje, estas mesmas ruas lhe encorajavam a vingar-se, não podia ser desprezado desse jeito depois de entregar-lhe corpo e alma como jamais havia feito à mulher alguma.
Parou no portão da casa, olhou o relógio. Já era madrugada, mas a luz do quarto acesa anunciava o que ele queria saber. Ela estava em casa e ele iria entrar sem avisar, afinal era uma vingança. Rodeou a casa, e entrou pela porta dos fundos, ele se lembrava bem de que há algum tempo a maçaneta havia estragado. Entrou. Tudo estava como antes, tudo no lugar, apenas ele não fazia mais parte do cenário, era um ator demitido, uma lembrança da temporada anterior. Triste, subiu as escadas como quem teme o que possa encontrar a cada novo passo. Silencioso andou o corredor superior sem abrir nenhuma porta em vão, não havia nenhuma necessidade de entrar em qualquer outro cômodo, ele queria apenas o quarto que costumava chamar de seu, e agora desejava não saber de quem era.
Ao final do corredor, lá estava a porta que buscava, entreaberta como ela gostava, para que a luza do corredor afastasse o medo do escuro. Mas ela iria provar da escuridão hoje, a escuridão em que ele havia mergulhado quando ela o deixou. Abriu a porta com cuidado, tentando evitar o ruído que sempre a acordava quando ele levantava para ir beber água. Conseguiu, entrou no quarto sem qualquer barulho. Olhou para cama mal conseguindo respirar, e lá estava ela, dormindo quase que sorrindo de serenidade. Ele sentiu raiva, incontrolável peso no peito que correu às mãos, ela dormia tranqüila enquanto ele há dias perdia o sono a pensar nela, sofrer por sua ausência.
Pegou o travesseiro em que,antigamente, sorria observando-a adormecer. Cheirou, sentiu o perfume dela, uma das coisas que ele jamais esqueceria. Fechou os olhos e derramou algumas poucas lágrimas, de uma consciência que sabia ter falhado, ele não queria fazer isso, mas precisava vingar-se. Apertou com força e tristeza, como fosse uma fera ferida, o travesseiro no rosto dela. Aquele rosto de anjo que ele adorava admirar. Apertou, segurou, fez mais força. Era agora, agora, agora, só mais um pouco, força, raiva, mágoa, mais um pouco e pronto. Entre lágrimas, esboçou um sorriso aliviado e disse:
- Eu sempre amei você, e agora você vai me amar pra sempre.
Deixou-se ao lado da cama por mais um breve momento, olhando a mulher morta, a mulher que ele acabara de assassinar para vingar o amor que ela havia assassinado em seu peito quando o deixou. Então acabou, ele tinha se vingado cruelmente da crueldade que ela lhe havia feito. Não era assim que se retribuia amor tão grande como o dele. Foi andando de volta para aquela mesa de bar com a sensação de dever cumprido.Tinha se vingado e, além disso, entendia agora o que ela lhe dissera outro dia. Seu amor tinha, de verdade, sufocado-a. E ele tinha mostrado a todo mundo que alguém podia sim morrer de amor por ele.

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