08 janeiro 2011


Saíram de casa com uma certeza inegociável: A noite iria render. Não lembrariam amarras nem lágrimas de antigas paixões desfeitas, a vida estaria resumida ali, naquele momento, e eles iriam fazer o melhor que pudessem. Eram ricos, belos, livres e, no alívio de fazer as próprias escolhas, iam se colocar à prova, corpo e alma na pista. Como quem atrai o que emite, tão logo deslizaram pista a dentro, os olhos se encontraram, excitante provocação. Foi um 'olho no olho' certeiro, sinal definitivo de que a noite prometia quentes emoções.
Ela, milimetricamente encaixada em um vestido roxo, elegante e sensual, tão curto que quase lhe revelava o talento. Cabelo liso, escuro, completava o mistério dos olhos castanhos expressivos, e a simpatia mais cruel de todas, que aprisiona quando se mostra em um simples sorriso tímido. Ele, olhos negros e suculentos feito jabuticaba de vez, cabelo molhado propositalmente com ar de desleixo, espremendo peitoril e outras qualidades em uma camisa bem passada sob um colete, tudo combinado com a calça social,impecável.
Era atração e era fatal. Buscaram-se em todos os cantos, em todas as músicas, em todas as conversas, em todos os olhares, mas o encontro lhes aguardava no fim da noite, já fora da boate, em clima de decisão como todo fim de festa. Se esbarraram como se quisessem tudo, ali mesmo, sem disfarçes. Ela sorriu, era toda dentes e rubor. Ele piscou, lépido, cauteloso talvez, claramente fagueiro. Foram para o apartamento dela buscar o que queriam, ainda, perder.
Chegaram ao quarto como um temporal inesperado, derrubando vergonha e móveis com a mesma intensidade. Mão quente na cintura dela, puxou-a para si, língua entre os dentes, e tomaram isso como passaporte para o paraíso. Carente de afeto, percorreu o sutiã, ela respondia com a língua trêmula na orelha a encorajá-lo. Mal se distraiu, ela desceu a mão. Ardendo em chamas, livraram-se da última peça, nas marcas de elástico da lingerie ele se perdeu em beijos. Franjinha no olho, pinta no seio direito, coxa grossa. Ele parou para admirá-la, nunca mais foi o mesmo. Escapou-lhe até um pigarro de fumante, ele que não fumava.  O braço dela, poderoso, apertava-o no frenesi da paixão, eram um só desejo mergulhado em chamas, e desejavam deliciosamente queimar. Ele exigiu todas as variações, cima, lado, baixo, cabeça trocada e, na falta de chicote, batia com a mão aberta. Ela exploráva-o como terra desconhecida, e pedia mais, quanto mais ele dava. E foi assim a madrugada toda, um desejo que grudou-lhes como fossem um só corpo, se desejando, se provando, gosto bom de tocar as partes íntimas da liberdade.
Gemidos, sussuros, e enfim gritos. Sensação de trabalho feito, muito bem feito. Satisfeitos como nunca, largaram-se um ao lado do outro, a sentirem o fluxo que ainda os matinham unidos, degustando, agora com calma, o gosto do prazer, sobremesa da perdição. Dormiram sem culpa, sem roupa. Mas então a manhã chegou justa e severa à cobrar a vida que os esperava, fazendo do que há pouco era realidade concreta e literalmente palpável, uma mera lembrança perdida na vontade de tocar o abstrato. Ela não levantou, de forma que não viu ele sair, virar apenas um vulto, florecer em mancha negra a deslizar no corredor, sumir no elevador. Mas não queria, e nem precisava, ouvir a porta fechar para saber o que acontecia ali. Era o de sempre, ela ficaria ali o resto do dia, saboreando migalhas do prazer amanhecido, sem um nome, telefone, ou bilhete sequer. Nenhuma novidade, ela sabia que enquanto fosse brisa doce ia estar constantemente vulnerável à passagem efêmera e avassaladora de qualquer vendaval.

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