01 abril 2010

Fora de Moda

Hoje fui comprar perfume como sempre vou: mentalizando trazer o usual e, ao mesmo tempo, aberta às inovações. Olhei, olhei, ou melhor, cheirei, cheirei, e fiquei na dúvida entre meus 3 favoritos, aliás, meus 3 mais rotineiros.Contudo, por algum motivo, resolvi perguntar à mulher sobre um perfume que eu usei há 6 anos, cujo nome era 'amizade' em francês. Embora eu estivesse bem resolvida quanto a não levá-lo, eu gostaria de rever o frasco, 'ressentir' o cheirinho de amizade que ele realmente me lembrava. Mas fui surpreendida duas vezes. Pela resposta da vendedora e pelo que essa resposta me fez sentir. Fui informada que o meu perfume com cheiro e nome de amizade saiu de linha e, estranhamente, fui tomada por uma sensação súbita de tristeza. Não pelo fato de o meu perfume da adolescência não existir mais, mas porque, de alguma forma, havia um significado bem maior por trás disso, tão maior quanto difícil.
Talvez você, curioso leitor, não entenda o que quero dizer, mas não me custa, pelo contrário, me alivia tentar proporcionar-lhe uma nova visão dos fatos. Ao ouvir que o perfume saiu de linha, na verdade ouvi o que a mulher não dizia, mas estava explícito como um elefante que se esconde atrás da moita: A amizade saiu de linha. Sim, é bem possível que isso seja uma interpretação muita criativa, sugerida pelo próprio nome do perfume, fugitiva nata da realidade, mas é o que eu ouvi,e o que tenho visto todos os dias. A amizade saiu de linha, caiu das paradas, está fora de moda. Ninguém mais se importa com qualquer tipo de relacionamento que não seja amoroso, ninguém mais percebe o que a boca não diz mas o olhar de um amigo lê claramente numa conversa muda, ninguém mais se importa se quem está ao lado precisa de ombro, precisa de colo, precisa de amor. E amor, ora! Convenhamos, simpático, as pessoas mal se lembram que ele existe, posto que vos falo não do amor carnal, mas do amor espiritual, a sensação de paz, tranquilidade, de estar completo, sentir-se abrigado e pronto para enfrentar qualquer tempestade, qualquer guerra, qualquer dor. E isso sabemos bem, eu e você, isso é exclusividade de amigos, das amizades. Aquela sensação de ser livre para errar e continuar sendo amado nos seus erros, mesmo os propositais, nas suas imperfeições, nos seus defeitos. Aquela relação em que sempre se ganha mais em oferecer, em que o bem do outro é nosso maior tesouro, em que a sinceridade e cumplicidade concretizam-se no singelo gesto de abraçar. Mas já não tem importância. Ninguém quer mais isso, não é mais top, não faz sucesso. Sucesso agora é ser pop, estampar a falsa simpatia no rosto, dar oizinho pra todo mundo e, dessa futilidade, gabar-se de ter muitos amigos. Ninguém mais diz as santas verdades que apenas verdadeiros amigos têm a segurança de dizer, aliás, mal têm tempo de dizer qualquer coisa que seja, as amizades são construídas em bases imaginárias, virtuais, são os dito amigos de orkut e msn. As pessoas querem relações passageiras, sentimentos frios, amores de papel. E a amizade vai embora assim, desse jeito, não fugindo do mundo, mas sendo expulsa dele e por ele. E vendo o que eu tenho de melhor se tornar esquecido e inútil, como as memórias que restaram do uso daquele perfume, penso no futuro. Não me importa se o mundo acabar em 2012, lembrarei, e isso basta, que tive amigos, amei-os mais do que a mim mesma e, acredite, estive na moda. Ao menos nas passarelas do coração.

Um comentário:

  1. Texto PERFEITO!

    Mas a NOSSA amizade, resiste ao tempo, a efemeridade dos gostos e a qualquer mudançda de estilo.
    E não importa qual a música do momento, estamos na pista pra dançar.Pois nossa amizade é como um ray ban " aviador": Não importa a moda, sempre faz sucesso!

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