15 dezembro 2009

Toda vez que abre a caixa de recordações, sente as lágrimas cair, ouve músicas que não existem, sente velhos cheiros dos quais mal se recorda, o coração palpita forte, talvez pra sair do peito, talvez pedindo pra fechar a caixa. Uma, entre as suas vivas e claras lembranças, se destaca no meio de todas. Aquele papel gasto, no fundo da caixa, de letras quase apagadas, por vezes escorridas, de chuva que tomaram enquanto guardadas no bolso, ou mesmo de água salgada que insistia em escorrer dos olhos quando era lida.
Naquele papel comun, branco, amarelado agora pelo tempo, mora todas as melhores, e mais doídas lembranças. Parece gritar pedindo ajuda no meio dos outros quando, teimosamente, abrem a caixa. Não é um abrigo, é uma prisão. Pensou que poderia esconder, mascarar, aprisionar aquilo que descobriu impossível de esquecer. Abre o papel como quem não quer nada, na certeza de querer tudo aquilo o que sabe que está lá, lido tantas vezes e, enfim decorado. Sente o choro subir silenciosa e mansamente do coração aos olhos, segura, resiste. Lê a primeira linha, se entrega.
Não é por egoísmo, sempre duvidou daquelas palavras, não acredita em perfeição. Mas sente-se renovada por dentro a cada linha de carinho e a cada abraço que parece saltar nas entrelinhas. Enquanto lê, pensa no tempo que passou, e como passou. Foi rápido, mas se lembra de ter visto aquele rosto toda vez que olhou no espelho, dizendo todas as palavras que, por falta de tempo ou coragem, apenas escreveu. Quando será que voltaria a sentir o calor da presença, e teria a oportunidade, quem sabe até coragem, de dizer que entende, que valoriza e, principalmente, sente o mesmo?
Enquanto esse dia não chega, espera com calma, lendo, e lendo de novo a carta que o tempo e o coração se encarregou de concretizar, como uma voz a lhe falar no ouvido. Fora isso, vai ao espelho conversar com quem, mesmo distante, sabe estar ouvindo atento. Grava como tatuagem na alma aquele trecho no fim do papel gasto, cada letra soa como melodia, e faz, desse refúgio dele, o seu próprio: "Se não for nessa vida, a gente se encontra na próxima".

Nenhum comentário:

Postar um comentário