17 novembro 2009

Flores de Retórica

Ele sorri pra ela. Retribuído. Ela cochicha o interesse aos ouvidos das amigas. Riem, ele se envaidece, cria coragem, estufa peito, se pinta macho. Ela treme e, com a proximidade dele, a boca seca, bambeiam as pernas, respiração retarda e coração acelera. Sem cantadas. Ele se garante, fala do interesse, fala a verdade, curto, grosso, eficiente. Ela, aliviada, confessa a recíproca, enrubece, sorri, aceita. Mãos dadas, tranqüilos, até que não doeu nada. O coração recupera a frequência normal quando, no entanto, o sangue parece ferver nas veias.
Ferve, e ferve quente, ferve bom, ferve deliciando e convidando-os. Agora tudo bem, já se entendem, já gravaram o gosto do outro, sabem o que querem, porque o querem, como o querem. Estão curtindo. Ele exibindo o troféu aos presentes, conseguiu, é dele, sorri contente, vitorioso. Ela está satisfeita, foi cobiçada, desejada, aproveita, mas pensa se isso vai ter algum futuro.Ele pede o telefone, grava o número e o nome, quase uma tatuagem virtual, mas não eterna. Ela fica aliviada outra vez, finalmente ele pediu! Mas... Será que vai mesmo ligar? E surpreende-se, ele ligou, convidou pra sair novamente, e o fez várias vezes durante aquele mês. Já não via a relação êfemera como antes.
O tempo passa, grudam-se, enamoram-se pra valer, convivem, conhecem os pais, os amigos, a rotina. São um casal, e um casal normal, vêm as brigas, o olho no olho, o ciúmes, o esquenta love... é tudo igual, ninguém esquece no final, são recordações. As mesmas juras, as mesmas promessas, aquela velha mania de pôr a culpa no sonho (inexistente): ' Você é tudo o que eu sonhei...' e fala-se sempre e tanto de um sonho que nunca se teve. Fala-se de sentimentos nunca experimentados, sensações desconhecidas, amor jogado ao vento se, de fato, um dia conheceram tamanho amor que dizem.
Resolvem-se pra sempre, ao altar, promessas que o tempo e o mundo, se encarregam de quebrar, sonhos apagados, desejos contidos, ideais modificados, mas são felizes, se amam, não é? E a mania de dar parentesco a alma, minha 'alma-gêmea', porque? e quantas metades da laranja uma mesma metade é capaz de encontrar? Quantas tampas couberam no fecho de uma única panela? São clichês baratos, mascarados, mas necessários. Qual relação sobreviveria sem eles?
E deixando de lado os sonhos nunca sonhados, os amores nunca vividos, os sentimentos mascarados, ressentimentos acobertados, o carinho nem tão carinhoso agora massacrado pela rotina, a saudade não sentida...Excetuando essas flores de retórica, até que formavam um belo casal e se gostavam.

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